1921/16.4T8BRR.L1-4 - Tribunal da Relação de Lisboa
Tribunal da Relação de LisboaTRL
Relator: Albertina das Dores Nunes Aveiro Pereira
Processo: 1921/16.4T8BRR.L1-4
Acórdão
Descritores: Advogado, Falta de procuração, Notificação
Decisão: Alterada a sentença
Votação: Unanimidade
Meio Processual: Apelação
Nr Documento: RL
Juízes: Eduardo SapateiroLeopoldo Soares
Fontes: DGSI: https://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/cc6c09f7e9c510268025824000584ce9
Sumário
I– Em processo em que seja obrigatória a constituição de advogado, não tendo sido junta aos autos a procuração, para efeitos do art.º 48.º n.º 2, do Código de Processo Civil, deve ser notificado o mandatário e também a parte visto ser esta, enquanto mandante, que cumprirá suprir a falta de procuração ou ratificar o processado. II– A notificação ao advogado justifica-se para o alertar, em termos de diligência, dadas as consequências em que incorre caso não seja regularizada a situação. (Elaborado pela Relatora)
Texto
Acordam na Secção Social do Tribunal da Relação de Lisboa. – Relatório: 1. – 1. - AAA veio apresentar formulário de oposição ao despedimento movido por BBB, Unipessoal, Lda., ao qual anexou a decisão de despedimento (fls. 2 -14). O trabalhador foi notificado e empregador citado para a audiência de partes. Teve lugar a audiência de partes (fls. 18) onde compareceram a autora, sua ilustre mandatária, a entidade empregadora, representada por (…)e a Dr.ª (…), ilustre mandatária da ré, que protestou juntar procuração. Tentada a conciliação não foi a mesma possível. A trabalhadora declarou optar pela indemnização, em substituição da reintegração. O empregador foi notificado para apresentar articulado para motivar o despedimento, juntar o procedimento disciplinar ou os documentos comprovativos das formalidades exigidas e para apresentar o rol de testemunhas. Tendo-se ainda consignado que “Caso seja apresentado articulado pela entidade empregadora, fica desde já a trabalhadora advertida que deverá no prazo de 15 dias, sob pena de não o fazendo se considerarem confessados os factos articulados pela empregadora, sendo logo proferida sentença a julgar a causa conforme for de direito ( art.º 98.º - L, n.ºs 1 e 2 do CPT )” . O empregador juntou aos autos o articulado a motivar o despedimento, rol de testemunhas e documentos. A trabalhadora contestou e apresentou documentos (fls. 59). Por despacho de fls. 64, entre o mais, foi determinado que não tendo a Dr.ª (…) juntado “ procuração aos autos conferida pela ré, pelo que deverá no prazo de 10 dias regularizar o processado.” Por despacho de fls. 65, foi consignado que: “Notificada para juntar procuração conferida pela ré, a ilustre advogada nada disse no prazo concedido. Por não ter demonstrado os seus poderes para representar a ré em juízo, determina-se o desentranhamento da motivação do despedimento junta aos autos pela ilustre advogada”. Foi de seguida proferida sentença, com o seguinte dispositivo: “ Pelos fundamentos expostos, nos termos do disposto no artigo 98.º-J , n.º 3, do Código de Processo do Trabalho : 1. – Declara-se a ilicitude do despedimento da trabalhadora; – Condena-se a Empregadora (…), Lda. a pagar à trabalhadora (…): a)- A título de indemnização pela ilicitude do despedimento, em substituição da reintegração, a quantia de €1.590,00, correspondente a 3 meses de retribuição; b)- Compensação correspondente à retribuição relativa ao período decorrido desde os 30 dias anteriores à propositura da ação até ao trânsito em julgado da decisão, deduzindo-se as importâncias que o trabalhadora auferiu com a cessação do contrato e que não receberia se não fosse o despedimento, bem como o subsídio de desemprego atribuído à autora no período referido, devendo o empregador entregar essa quantia à segurança social, a liquidar posteriormente em sede de execução de sentença. c)- Os juros, contados desde o vencimento de cada uma das prestações. Custas a cargo da Empregadora, nos termos do artigo 527.º , n.º 1 e 2, do Código de Processo Civil , aplicável por força do disposto no artigo 1.º , n.º 2, alínea a), do Código de Processo do Trabalho . Registe e notifique, incluindo a Empregadora, nos termos do artigo 98.º-J , n.º 4, do Código de Processo do Trabalho . Comunique ao ISSS a presente decisão, nos temos e para os efeitos do disposto no artigo 390.º , n.º 2, alínea c), do Código do Trabalho ”. A fls. 68 verso, foi por despacho determinada a notificação da trabalhadora, nos termos do art.º 98.º -J, n.º 3, alínea c), para querendo em 15 dias, apresentar articulado no qual peticione outros créditos emergentes do contrato de trabalho, sua violação ou cessação. Na sequência da notificação determinada, veio a trabalhadora apresentar articulado (fls. 70 e 71), requerendo a condenação da ré nas quantias respeitante às retribuições que deixou de receber desde o despedimento (euros 4770,00); compensação pela duração do contrato (euros 1167,65) e indemnização, em substituição da reintegração (euros 1590,00). Tudo acrescido dos respectivos juros de mora. 1 . 2. – Inconformada com aquela decisão condenatória dela recorre a ré. Deduziu como questão prévia que a decisão que venha a resultar deste tribunal seja traduzida em mandarim, visto a sócia gerente ser de nacionalidade chinesa e não dominar o idioma português, nos termos art.º 133.º n.º 2 do CPC . E concluiu as suas alegações do seguinte modo: 1. – A Sentença recorrida declarou a ilicitude do despedimento da trabalhadora; 2. – Condenou a Empregadora BBB, Lda. a pagar à trabalhadora AAA: a)- A título de indemnização pela ilicitude do despedimento, em substituição da reintegração, a quantia de €1.590,00, correspondente a 3 meses de retribuição; b)- Compensação correspondente à retribuição relativa ao período decorrido desde os 30 dias anteriores à propositura da acção até ao trânsito em julgado da decisão, deduzindo-se as importâncias que o trabalhadora auferiu com a cessação do contrato e que não receberia se não fosse o despedimento, bem como o subsídio de desemprego atribuído à autora no período referido, devendo o empregador entregar essa quantia à segurança social, a liquidar posteriormente em sede de execução de sentença. c)- Os juros, contados desde o vencimento de cada uma das prestações. 3. – Considerou a Sentença recorrida que notificada para juntar procuração conferida pela ré, a advogada nada disse no prazo concedido, o que se não logra aqui provar não ter ocorrido embora tivesse tido efectivamente lugar o envio daquela e das três peças de roupa mencionadas na motivação do despedimento. 4. – Por não ter demonstrado os seus poderes para representar a ré em juízo, determinou-se o desentranhamento da motivação do despedimento junta aos autos pela advogada o que culminou na condenação da Ré, sem mais. 5. – Deverá dar-se provimento ao presente recurso revogando-se a decisão recorrida, devendo o tribunal conceder prazo à Ré para esta, querendo como manifestamente quer, sanar a irregularidade com junção de segunda via do mandato forense que na altura se remeteu, com a ratificação do processado, prosseguindo os autos, após, os ulteriores termos até final. 6. – O Tribunal deveria ter notificado a Ré em face da alegada omissão da Advogada, uma vez que teria o direito de constituir mandatário. 7. – Condenar ainda o empregador como condenou a Sentença recorrida, no pagamento das retribuições que o trabalhador deixou de auferir desde a data do despedimento até ao trânsito em julgado da mesma – vide a data - é pois impor à Ré um vínculo que já não existia com violação do princípio da liberdade contratual. 8. – Nestes termos, deve pois a decisão recorrida ser também nesta parte revogada, considerando-se apenas para os devidos efeitos o pagamento das retribuições que o trabalhador deixou de auferir desde a data do despedimento até ao termo do contrato de trabalho que a unia á Ré. 9. – Ora a Autora não tem direito a nenhum subsídio de desemprego por não reunir as condições necessárias à sua atribuição, desde logo, por não ter perfazido o tempo necessário para esse fim, devendo também neste domínio revogar-se a sentença recorrida. COMO É DE JUSTIÇA! A fls. 83 verso, a ré diz juntar pessoalmente os documentos, suporte de imagens e novas peças de vestuário uma vez que as anteriores cujas fotografias estão juntas aos autos estão extraviadas. 1.3. – A trabalhadora respondeu ao recurso da empregadora, pugnando pela improcedência deste. 1.4. – Por despacho de fls. 89, foi determinada que a ilustre advogada juntasse aos autos os elementos que refere em 10 dias, não sendo do conhecimento qualquer extravio ou entrega postal ou pessoal, bem como a notificação da ilustre advogada da ré para proceder à junção da procuração forense, em 10 dias, com as advertências do disposto no art.º 48.º , n.º 2 do CPC . 1.5. – A fl. 91, a ré juntou aos autos a procuração forense em nome da Dr.ª (…) ratificou todo o processado. 1.6. – A fls. 92, veio a ré juntar documentos que alegara se tinham extraviado, onde se inclui o processo disciplinar. 1.7 . – O recurso foi admitido (fls. 170 e 177), com efeito devolutivo. Cumpre apreciar e decidir . 2. – Objecto do recurso O objecto do recurso é delimitado pelas conclusões das respectivas alegações do recorrente, sem prejuízo das questões de conhecimento oficioso que não tenham sido apreciadas com trânsito em julgado - artigos 635.º , n.ºs 3 e 4, 639.º , n.ºs 1 e 2, 608.º , n.º 2, do Código de Processo Civil , aprovado pela Lei 41/2013 , de 26 de Junho, “ ex vi” do art.º 87.º , n.º 1 do Código de Processo do Trabalho . Assim, as questões que a recorrente coloca à apreciação deste tribunal consistem em saber se a ré empregadora deveria ter sido notificada para constituir mandatário e se ocorre violação do princípio da liberdade contratual. – Fundamentação de facto. A constante do relatório. 4. – Fundamentação de facto . Da falta da notificação à empregadora para constituir mandatário No presente caso, a ré fez-se acompanhar, na audiência de partes, da Ex.ª Advogada, Dr.ª (…). Esta, apesar de ter protestado apresentar procuração não o fez, nem tão pouco quando lhe foi concedido o prazo de 10 dias para regularizar o processado. Tal omissão veio a dar lugar ao despacho a ordenar o desentranhamento da motivação do despedimento e à sentença condenatória da ré, nos termos acima transcritos. Como é sabido, de acordo com o art.º 40.º n.º 1, alínea b), do CPC é obrigatória a constituição de advogado, entre outras situações, nas causas em que seja sempre admissível recurso, independentemente do valor, como ocorre na presente acção especial de impugnação da regularidade e licitude do despedimento ( art.º 79.º alínea a), do Código de Processo do Trabalho . Sendo que, nos termos do art.º 98.º- B, do mesmo Código, se determina que neste tipo de acção, só é obrigatória a constituição de advogado, após a audiência de partes, com a apresentação dos articulados. O art.º 48.º n.º 2, do CPC impõe que em caso de falta de procuração “ O juiz fixa o prazo dentro do qual deve ser suprida a falta ou corrigido o vício e ratificado o processado, findo o qual, sem que esteja regularizada a situação, fica sem efeito tudo o que tiver sido praticado pelo mandatário, devendo este ser condenado nas custas respetivas e, se tiver agido culposamente, na indemnização dos prejuízos a que tenha dado causa ”. Discute-se, como é sabido, a quem deve ser dirigida a notificação para ser suprida a falta, corrigido o vício ou ratificado o processado, conforme ordenado naquele normativo. Sustentam alguns que a mesma deve fazer-se na pessoa do advogado, pois caso não seja observado o dito comando legal, sobre aquele recairá a condenação em custas e em indemnização, caso tenha agido com culpa, conforme resulta da parte final do aludido preceito. Afigura-se-nos, contudo, que a posição a seguir é a que sustenta dever ser (também) notificada a parte. É à mesma, enquanto mandante, que cumprirá suprir a falta de procuração ou ratificar o processado. Justificando-se a notificação ao advogado para o alertar, em termos de diligência, dadas as consequências em que incorre caso não seja regularizada a situação. ( Vd. Acórdão do STJ de 19.03.2007, processo 09A0330, www.dgsi.pt ) No presente caso, apenas a Senhora Advogada foi notificada do despacho em causa, cuja falta de resposta, implicou se desconsiderasse o articulado motivador do despedimento apresentado pela ré, com as sobreditas consequências condenatórias para esta. Tal omissão traduziu-se, assim, numa irregularidade, com influência no exame e na decisão da causa, integradora de nulidade, nos termos do art.º 195.º n.º 1 do CPC , pese embora a ré a não tenha classificado expressamente como tal ( art.º 5.º n.º 3 do CPC ). E, porque essa nulidade foi praticada a coberto de despacho judicial, é a mesma impugnável por via de recurso, como vem sendo entendido. Uma vez que foi posteriormente junta aos autos, a competente procuração e ratificado o processado pela ré, nos termos do art.º 195.º n.º 2, deve anular-se o despacho de fls. 65, onde se determinou o desentranhamento da motivação do despedimento junto ao processo pela ilustre advogada, bem como a decisão condenatória de fls. 65 a 68, a notificação à autora e o articulado apresentado por esta a fls. 70 verso e 71, prosseguindo, de seguida, os autos a sua normal tramitação. Posto isto, prejudicadas ficam as restantes questões decorrentes do recurso da ré. – Decisão. Em face do exposto, concede-se provimento ao recurso da ré, anulando-se a decisão condenatória de fls. 65 a 68, bem como a notificação à autora e articulado apresentado por esta a fls. 70 verso e 71, prosseguindo de seguida os autos, nos termos expostos, os seus trâmites normais. Custas pela autora. Lisboa, 2017-12-21 Albertina Pereira Leopoldo Soares Eduardo Sapateiro