02269/16.0BEBRG - Supremo Tribunal Administrativo
Supremo Tribunal AdministrativoSTA
Relator: Fonseca da Paz
Processo: 02269/16.0BEBRG
Acórdão
Descritores: Apreciação preliminar, Pensão de invalidez
Recorrente: Caixa Geral de Aposentações
Recorridos: Aa
Votação: Unanimidade
Nr Convencional: JSTA000P32196
Nr Documento: SA12024050202269/16
Juízes: José Augusto Araújo VelosoTeresa Maria Sena Ferreira de Sousa de SousaJosé VelosoTeresa Maria Sena Ferreira de Sousa
Fontes: DGSI: https://www.dgsi.pt/jsta.nsf/35fbbbf22e1bb1e680256f8e003ea931/cfde62b72fb5402680258b2300361e7d
Sumário
Justifica-se admitir a revista quando o acórdão recorrido suscita legítimas dúvidas quanto ao seu acerto e o assunto, tendo potencialidade de repetição, reclama uma clarificação de directrizes.
Texto
ACORDAM NA FORMAÇÃO DE APRECIAÇÃO PRELIMINAR DA SECÇÃO DO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO DO SUPREMO TRIBUNAL ADMINISTRATIVO. 1. AA intentou, no TAF, contra a Caixa Geral de Aposentações, IP (doravante CGA ), acção administrativa, para impugnação do acto que determinou o arquivamento do seu processo de invalidez, pedindo a anulação desse acto e a condenação da Caixa a praticar o acto administrativo devido, reconhecendo que a sua doença fora adquirida em cumprimento do serviço militar obrigatório e por motivo do seu desempenho. Foi proferida sentença que, julgando a acção totalmente procedente, anulou o acto impugnado e condenou a entidade demandada “a conceder ao Autor a pensão de invalidez requerida”. A entidade demandada apelou para o TCA-Norte, o qual, por acórdão de 12/01/2024, negou provimento ao recurso, confirmando a sentença. É deste acórdão que a entidade demandada vem pedir a admissão de recurso de revista. Tem-se em atenção a matéria de facto considerada pelo acórdão recorrido. O art.º 150.º, n.º 1, do CPTA, prevê que das decisões proferidas em 2. a instância pelos tribunais centrais administrativos possa haver excepcionalmente revista para o STA “quando esteja em causa a apreciação de uma questão que, pela sua relevância jurídica ou social, se revista de importância fundamental” ou “quando a admissão do recurso seja claramente necessária para uma melhor aplicação do direito”. Como decorre do texto legal e tem sido reiteradamente sublinhado pela jurisprudência deste STA, está-se perante um recurso excepcional, só admissível nos estritos limites fixados pelo citado art.º 150.º, n.º 1, que, conforme realçou o legislador na Exposição de Motivos das Propostas de Lei nºs. 92/VIII e 93/VIII, corresponde a uma “válvula de segurança do sistema” que apenas pode ser accionada naqueles precisos termos. O acórdão recorrido, para confirmar a sentença quanto à verificação do vício de forma por falta de fundamentação, referiu “(…). A Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações ainda que pudesse afastar-se da conclusão tirada pela Junta Hospitalar de Inspecção, realizada no Hospital Militar Regional n.º 1 - e não podia - teria, para esclarecer suficientemente a sua conclusão, de referir as razões concretas pelas quais afastava a avaliação feita pela primeira junta médica. Não podia pura e simplesmente fazer tábua rasa de todo o processo que recebeu instruído, no que diz respeito à incapacidade do Autor, por entidade com competência para o fazer, no momento em que o fez, a Junta Hospitalar de Inspecção do Exército Português. A Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações faz, pelo contrário, uma consideração genérica de “que a ansiedade não é considerada como doença adquirida em serviço e em consequência do seu desempenho” - facto provado sob a alínea l) - o que, de acordo com a percepção de um destinatário mediano, se mostra manifestamente desajustado ao caso concreto, de um procedimento “de acesso à rede nacional de apoio aos militares e ex-militares portadores de perturbação psicológica crónica, resultante de exposição a fatores traumáticos de stress durante a vida militar” -facto provado sob a alínea c). Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações devia, portanto, esclarecer por que no caso concreto de um militar que entre “29 de Setembro de 1970 e 27 de Setembro de 1972, o Autor cumpriu uma comissão de serviço no ex-Comando Territorial independente da ... onde integrou a Companhia de Comando de Serviços do Batalhão de Caçadores n.º ... com a especialidade de condutor autorrodas” - facto provado sob a alínea b) - considerou que “as lesões apresentadas não resultaram de desastre ou doença ocorrido no exercício das suas funções ou por motivo do seu desempenho ” - facto provado sob a alínea l). Esclarecimento que não prestou minimamente. Por sua vez, no que concerne à procedência do vício de violação de lei, o acórdão considerou o seguinte: “(…). Importava explicitar o seguinte: O Autor foi julgado incapaz de todo o serviço militar e não lhe foi reconhecida a qualidade de Deficiente das Forças Armadas, mas foi-lhe reconhecida uma incapacidade permanente parcial para o trabalho de 15% - factos provados sob as alíneas d) a j). Não consta dos autos que estes actos tenham sido impugnados nem pelo Autor, no prazo geral de 3 meses, nem pelo Ministério Público no prazo de um ano - alíneas a) e b) do n.º 1 do artigo 58° do Código de Processo nos Tribunais Administrativos. Pelo que tais actos se consolidaram na ordem jurídica. E consolidaram-se não apenas na parte desfavorável ao Autor, aquela em que não foi qualificado como Deficiente das Forças Armadas - porque este não impugnou - mas também na parte em que lhe foi favorável, aquela em que foi julgado incapaz para o trabalho em geral, em 15% - porque o Ministério Público, em defesa da legalidade, o não impugnou. Não seria justo, razoável ou sequer legal considerar apenas consolidado na ordem jurídica o referido acto apenas se tivesse consolidado na ordem jurídica na parte que lhe era desfavorável. Até porque, é de presumir, o Autor aceitou a parte desfavorável, a de não ser qualificado como Deficiente das Forças Armadas, no pressuposto de que lhe era reconhecida a incapacidade permanente parcial de 15% para o trabalho em geral como requisito para a concessão de uma pensão de invalidez. O que significa que no caso concreto não podia a Caixa Geral de Aposentações reavaliar a incapacidade do Autor para o trabalho em geral, mas apenas determinar se, face à incapacidade de 15% já fixada por acto consolidado na ordem jurídica, o Autor tem ou não direito à pensão requerida, face às normas legais aplicáveis ao caso concreto. A Caixa Geral de Aposentações não tinha na apreciação do caso concreto qualquer margem de discricionariedade técnica ou administrativa para indeferir ou deferir o pedido. Tratava-se, no caso, do exercício de um poder estritamente vinculado, o de definir a lei aplicável ao caso concreto. E da lei aplicável ao caso concreto, referida na sentença, sem crítica nesta parte e acima transcrita, o Autor tem direito à pensão requerida. Tal como decidido na sentença recorrida, que, como tal, deve ser mantida na ordem jurídica. A entidade demandada justifica a admissão da revista com a necessidade de se proceder a uma melhor aplicação do direito, imputando ao acórdão recorrido a nulidade de omissão de pronúncia - por ausência de apreciação da questão que suscitara de não poder ser condenada a reconhecer o direito do A. à pensão de invalidez apenas com base no parecer da Junta de Saúde Militar - e erros de julgamento por violação do art.° 119.°, do Estatuto de Aposentação, aqui aplicável por força do art.° 127.°, do mesmo diploma - dado que, competindo à Junta Médica da CGA fixar o grau de desvalorização e o nexo de causalidade entre o serviço militar e a incapacidade, não fica impedida de o fazer mesmo que a deliberação da Junta de Saúde Militar, que só se pronuncia sobre a inaptidão para o serviço militar, não tenha sido impugnada - e porque o parecer da sua Junta Médica se encontra suficientemente fundamentado quando conclui pela não verificação do referido nexo de causalidade devido à ansiedade não ser considerada uma doença em serviço. As questões suscitadas na revista revelam-se pertinentes face à solução jurídica que veio a ser adoptada pelo acórdão recorrido que suscita legítimas dúvidas quanto ao seu acerto. Convém, assim, que o Supremo reanalise o caso para uma melhor indagação e, eventualmente, uma melhor decisão num assunto que suscita interrogações jurídicas e que, tendo potencialidade de repetição, reclama uma clarificação de directrizes. Deve, pois, ser quebrada a regra da excepcionalidade da admissão da revista. 4. Pelo exposto, acordam em admitir a revista. Sem custas. Lisboa, 2 de Maio de 2024. – Fonseca da Paz (relator) – Teresa de Sousa - José Veloso.