1Relatório.
B… propôs, no Tribunal Judicial de Vila Pouca de Aguiar, a presente acção declarativa de condenação, sob a forma sumária, contra C…, S.A e D…, S.A., alegando, e em síntese, que:
- -no dia 16 de Novembro de 2008, pelas 22h15, sofreu um acidente de viação, consubstanciado no facto do veículo que conduzia ter embatido contra um animal de raça canina, quando circulava na Auto-Estrada .., Km 35, no sentido …/…, o qual surgiu inopinadamente na via.
- -o veículo sofreu danos materiais, o que o desvalorizou, sendo certo que esteve impedido de o usar durante o período de cinco dias;
- -a primeira ré é concessionária da referida Auto-Estrada .., respondendo pelos prejuízos causados a terceiros no exercício das actividades que constituem o objecto da Concessão, de acordo com as Bases, VIII, XXXVII e LXXIII do contrato de concessão, anexo ao DL 323-G/2000, de 19 de Dezembro;
- -a referida ré, de acordo com o contrato de concessão, tem o encargo de manter a Auto-Estrada em bom estado de funcionamento, conservação e segurança, assegurando a vigilância das condições de circulação, nomeadamente a sua fiscalização e prevenção de acidentes, tudo obrigações que a referida ré omitiu, no presente caso, permitindo que o referido animal se encontrasse na via de circulação;
- -a responsabilidade civil da segunda ré decorre do facto de ser a entidade que presta os serviços de operação e manutenção dos diversos lanços da Auto-Estrada, concessionada à primeira ré, tendo sido naquela que esta delegou as funções de inspecção e conservação da referida Auto-Estrada, tendo omitido os referidos deveres de vigilância ;
Conclui pedindo a condenação das rés, solidariamente ou individualmente, no pagamento ao autor de € 10.372,62 a título de indemnização pelos danos patrimoniais e não patrimoniais.
Regularmente citadas, as rés contestaram impugnando a factualidade alegada pelo autor.
Findos os articulados, o Juiz a quo ordenou a notificação das partes para se pronunciarem sobre a incompetência em razão da matéria daquele tribunal para conhecer do presente litígio.
O autor pronunciou-se no sentido de que aquele tribunal é o competente em razão da matéria.
No despacho saneador, o juiz a quo conheceu oficiosamente da excepção dilatória da incompetência absoluta declarando “o Tribunal incompetente em razão da matéria para apreciação da presente acção e, consequentemente, absolveu da instâncias as rés”.
Inconformado o autor interpôs recurso de apelação ora em apreciação cujas conclusões são as seguintes:
1.º - O Tribunal a quo fez errado julgamento da matéria de direito, delineando um enquadramento jurídico incorrecto acerca da competência material dos Tribunais Judiciais para dirimirem questões relacionadas com a responsabilidade civil decorrente de acidentes ocasionados em Auto-estradas concessionadas.
2.º - Entende o recorrente que a competência material do Tribunal afere-se pela natureza da relação jurídica tal qual é apresentada na petição inicial, i. e., pela forma como surgem definidos a causa de pedir e o pedido.
3.º - E nem se diga, tal como preconiza a sentença recorrida, que com a entrada em vigor do novo E.T.A.F. (Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro), se operou uma profunda alteração das competências materiais dos Tribunais Administrativos, perdendo actualidade e relevância a distinção entre actos de gestão pública e actos de gestão privada.
4.º - Com efeito, tais afirmações carecem de qualquer sustentação legal e doutrinária, isto porque, mesmo perante a aplicação do novo ETAF tem-se entendido que, na prática, os conceitos de gestão pública e gestão privada continuam a constituir a base de delimitação da jurisdição administrativa, maxime em matéria de responsabilidade extracontratual do Estado. Ora,
5.º - Na situação sub judice, o pedido formulado pelo recorrente consiste na condenação das recorridas - uma concessionária e uma entidade criada em regime de exclusividade para prestar serviços de operação e manutenção dos diversos lanços de Auto-estrada concessionada à 1.ª recorrida – no pagamento de uma indemnização, com fundamento na responsabilidade civil extracontratual emergente da omissão dos deveres de vigilância, manutenção e conservação da Auto-estrada .., no sentido …/…, por parte daquelas.
6.º - O litígio não emerge, pois, do contrato celebrado entre as recorridas e o Estado Português, nem de qualquer relação jurídica administrativa.
7.º - Antes pelo contrário, estamos perante uma controvérsia entre entidades privadas – o recorrente e duas sociedades anónimas, constituídas de acordo com preceitos eminentemente privatísticos e completamente despojadas de qualquer manifestação de jus imperii.
8.º - Apesar de a 1.ª recorrida constituir uma concessionária, nem por isso parece ser possível enquadrar a presente acção em qualquer das alíneas do artigo 4º, nº 1 do E.T.A.F.,
9.º - Nada existindo na lei que lhe torne, outrossim, directamente aplicável o regime específico da responsabilidade do Estado, patente no “D-L” n.º 67/2007 de 31 de Dezembro.
10.º - Em perfeita harmonia com esta mesma linha de raciocínio, acha-se o conteúdo das respectivas Bases da Concessão da C… (aprovadas pelo Decreto-Lei n.º 323-G/2000 de 19 de Dezembro), que salienta a natureza privada da concessionária perante terceiros (conf. Bases VIII, o nº 2 da Base XXXVII, o nº 1 da base LIV, LXXIII e LXXIV).
11.º - As recorridas, no desenrolar dos acontecimentos sobre os quais o recorrente funda a invocada responsabilidade civil extracontratual, não agiram ao abrigo de quaisquer prerrogativas de direito público, mas antes como meros sujeitos de direito privado.
12.º - Pelo que a apreciação da acção proposta não envolve a solução de um litígio emergente de relação jurídica administrativa, antes correspondendo ao conhecimento de uma questão de direito privado, da competência dos tribunais judiciais.
13.º - Conclui, assim, o recorrente, nos termos do artigo 13.º do Código de Processo nos Tribunais Administrativos e dos artigos 1.º, n.º 1 e 4.º do E.T.A.F., não serem os Tribunais Administrativos e Fiscais materialmente competentes para decidir os pedidos que formulou nos presentes autos.
14.º - Inexiste qualquer disposição legal que submeta as recorridas ao regime jurídico específico da responsabilidade do Estado e demais pessoas colectivas de direito público - crê-se, salvo o devido respeito por opinião diversa, não estar em causa qualquer tipo de relação jurídica administrativa, devendo ser aplicável ao caso em apreço o critério residual previsto no artigo 66.º do Código de Processo Civil e no artigo 18.°, nº 1 da L.O.F.T.J., que atribui competência aos Tribunais Judiciais para solucionar questões em tudo similares à vinda de enunciar.
15.º - Por todo o exposto, entende o recorrente que o Tribunal a quo, decidindo como decidiu, violou frontalmente o artigo 212.º, n.º 3 da Constituição da República Portuguesa que determina que compete aos tribunais administrativos e fiscais o julgamento das acções e recursos contenciosos que tenham por objecto dirimir os litígios emergentes das relações jurídicas administrativas e fiscais”, uma vez que a relação jurídica em apreço se afigura como manifestamente privada. Por sua vez,
16.º - Encontram-se, outrossim, beliscadas as normas nos artigos 66.º do Código de Processo Civil e no artigo 18.°, nº 1 da L.O.F.T.J.., bem como o disposto na alínea i) do nº 1 do artigo 4º do ETAF, bem como o nº 5 do artigo 1º da Lei 67/2007 de 31 de Dezembro, uma vez que a 1ª recorrida não se enquadra dentro da categoria dos “sujeitos privados aos quais seja aplicável o regime específico da responsabilidade do Estado e demais pessoas colectivas de direito público” - alínea i) do nº 1 do artigo 4º do ETAF – nem tampouco configura um exemplo de pessoa colectiva de direito privado que actue “no exercício de prerrogativas de poder público ou que seja regulada por disposições ou princípios de direito administrativo” - nº 5 do artigo 1º da Lei 67/2007 de 31 de Dezembro.
Nestes termos, E noutros que V. Exas. suprirão, concedendo a apelação, revogando a sentença recorrida e declarando-se o Tribunal Judicial de Vila Pouca de Aguiar materialmente competente para apreciar a questão em apreço, far-se-á JUSTIÇA.
Não consta dos autos que as rés tenham apresentado contra-alegações.
2-Objecto do recurso.
Sabendo-se que o objecto do recurso é delimitado pelas conclusões das alegações dos recorrentes – arts. 660, 664, 684 e 685-A,nº1, todos do CPC – a questão colocada a esta Relação é a de saber se o Tribunal recorrido é incompetente em razão da matéria para o julgamento do presente litígio.
3Os factos a considerar são os constantes do relatório desta decisão.