Do Direito
Na decisão recorrida entendeu-se ser de cessar antecipadamente o procedimento de exoneração.
Constituem causas possíveis da cessação antecipada:
. o incumprimento pelo devedor com dolo ou culpa grave de alguma das obrigações impostas pelo artº 239º, com prejuízo para a satisfação dos créditos sobre a insolvência (artº 243º, nº 1, alínea a));
. o apuramento, no incidente de qualificação de insolvência, da contribuição culposa do devedor para a criação ou agravamento da situação de insolvência (artº 243º,nº 1, alínea c));
. as hipóteses previstas nas alíneas b), e) e f) do nº 1 do artº 238º (artº 243º, nº 1, alínea b)) que são algumas das que dão causa ao indeferimento liminar. Estas constituem situações que teriam justificado o indeferimento liminar do pedido de exoneração, mas que não foram oportunamente atendidas por a sua verificação ou o seu conhecimento só ter ocorrido supervenientemente que poderão assim ser objeto de nova apreciação, mas agora com vista à cessação antecipada do procedimento de exoneração. No segundo caso, a superveniência é aferida em função do conhecimento de quem requer a cessação antecipada do procedimento e as referidas circunstâncias só podem ser arguidas no caso do seu conhecimento pelo requerente ter sido adquirido após o despacho inicial.
Autores há que não concordam que a referida remição para o artº 238º do CIRE se restrinja às causas mencionadas, tanto mais que o nº 1 do artº 246º, aplicável à revogação da exoneração, opera uma remissão para quase todas as alíneas que se encontram previstas no nº 1 do artº 238º, com excepção, como bem se compreende, da relativa à alínea a) que diz respeito à extemporaneidade de apresentação do pedido e defendem a interpretação extensiva ou enunciativa do disposto sobre a revogação à recusa antecipada, constituindo assim causa de recusa antecipada qualquer dos fundamentos previstos para a revogação (neste sentido Maria de Assunção Oliveira Cristas, Exoneração do passivo restante, p. 171, citada por Catarina Serra, em Lições do Direito da Insolvência, 2ª edição, 2021, Almedina, p. 624).
As causas de cessação configuram como uma sanção imposta ao devedor por comportamentos indevidos por ele adotados antes ou na pendência da exoneração.
Relativamente à causa de recusa de exoneração com fundamento na alínea c) do nº 1 do artº 243º, a redação desta alínea, quando confrontada com a noção geral de insolvência culposa, suscita algumas dúvidas relativamente à qualificação que o legislador quis efectivamente abranger. Efetivamente, para além do requisito temporal a que também atende o nº 1 do artº 186º, alínea c) do nº 1 do artº 243º, ao referir-se a culpa, se entendida esta expressão no seu sentido lato, abrangeria situações que não correspondem ao dolo ou culpa grave que qualificam a insolvência culposa, pelo que se podia suscitar a questão se a alínea c) do nº 1 do artº 243º abrangeria também casos de insolvência fortuita.
Esta interpretação literal do preceito conduz a uma solução dissonante da que resulta das duas outras alíneas, impondo-se uma interpretação restritiva que limite a aplicação da alínea c) aos casos de insolvência culposa (cfr. defende Luis Carvalho Fernandes, “A exoneração do passivo restante na insolvência das pessoas singulares no direito português”, Colectânea de Estudos sobre a Insolvência, Quid Juris, Lisboa, 2009, p. 291).
Como se referiu já, o fiduciário requereu a cessação antecipada com fundamento na violação do disposto no artigo 243.º, n.º 1, al. b), alínea e) do nº 1 do artigo 238º e alíneas a) e d) do nº 2 e nº 4 do artigo 186º, todos do CIRE, enquadramento normativo que, de acordo com a interpretação que fizemos, foi mantido na decisão recorrida.
Dispõe a referida alínea e) do nº 1 do artº 238º que o pedido de exoneração não deve ser concedido se “constarem já no processo, ou forem fornecidos até ao momento da decisão, pelos credores ou pelo administrador da insolvência, elementos que indiciem com toda a probabilidade a existência de culpa do devedor na criação ou agravamento da situação de insolvência, nos termos do artº 186º”.
No caso dos autos verifica-se que a insolvente não informou os autos da existência da titularidade de um direito à herança por óbito dos seus pais, nem quando requereu a sua insolvência, nem posteriormente, tendo repudiado a herança em 03.05.2018, já depois da prolação do despacho liminar proferido no procedimento, em 15.09.2016. Tendo o bem imóvel que integrava a herança sido vendido por 60.000,00 e sendo quatro os filhos dos autores da herança, a insolvente, caso não tivesse repudiado a herança, iria receber a quantia de 15.000,00.
Entende a apelante que não estava obrigada a declarar o referido direito porque sabia que não tinha qualquer direito à herança, cumprindo a vontade dos autores da herança seus pais e dos demais co-herdeiros, que pretendiam que a sua parte fosse entregue aos seus filhos, o que demonstra também a sua ausência de culpa.
Nos autos foram reclamados créditos em valor superior a 12.500,00.
Os autos foram encerrados em 15.09.2016 por falta de bens, apenas prosseguindo para efeitos do procedimento de exoneração.
O período de 5 anos da cessão iniciou-se após o despacho de encerramento e em virtude do valor dos rendimentos auferidos pela insolvente, serem inferiores ao valor subtraído à cessão, correspondente a 1,5 o salário mínimo nacional, a insolvente até ao momento nada entregou ao fiduciário.
O nº 1 do artº 186º prevê que a insolvência é culposa quando a situação tiver sido criada ou agravada em consequência da actuação, dolosa ou com culpa grave, do devedor, nos três anos anteriores ao início do processo de insolvência” (nº 1). Uma vez que o preceito nada dispõe de particular sobre a noção de dolo ou culpa grave, estas deverão ser entendidas nos termos gerais de Direito (cfr. defendem Luis Carvalho Fernandes e João Labareda, Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas Anotado, reimpressão, 209, Quid Juris, p. 610).
Por sua vez, o nº 2 do artº 186º estabelece uma presunção inilidível que completa a noção do nº1 e o nº 3, mediante uma presunção ilidível, dá por verificada a culpa grave quando se verifiquem determinadas circunstâncias (cfr. defendem Luís Carvalho Fernandes e João Labareda, obra citada, p.610).
Assim, no seu nº 2, estabelece-se que a insolvência é “sempre culposa” quando o devedor pessoa singular, tenha praticado ou omitido certos factos e, entre eles, conforme aí referido, ocultado ou feito desaparecer, no todo ou em parte considerável, o património do devedor (alínea a) ou dispondo dos mesmos em proveito pessoal ou de terceiros (alínea d).
Ao dizer-se, no nº 2, que é ou se considera “sempre” culposa a insolvência “quando” ocorram os factos a seguir objectivados, tal advérbio não visa modificar aquela relação temporal, antes referida no nº 1 como a relevante (os três últimos anos anteriores).
O utilização do advérbio sempre tem por fim modificar o núcleo dos aludidos pressupostos ou condições exigíveis pelo nº 2, dispensando a verificação dos em geral enunciados no nº 1 – dolo ou culpa grave, nexo de causalidade e resultado - bastando-se com os de seguida tipificados nas suas diferentes alíneas (presumindo a sua ocorrência e dispensando a demonstração). Não pretende alterar o período temporal em que, para relevarem, eles devem acontecer ( cfr. sustentam Luis Carvalho Fernandes e João Labareda, obra citada, p.610 e se defende no Ac. deste Tribunal de 15.03.2018, processo 2434/16.0T8VNF.G1 – 1.ª , relatado pelo Desembargador José Amaral, em que a relatora interveio como adjunta, mas que não se encontra publicado e que temos vindo a seguir de perto).
Assim o nº 2 elimina a exigência, para que o conceito de insolvência culposa se preencha e opere, de que, comprovadamente, uma certa conduta do devedor seja efectivamente censurável segundo qualquer das modalidades e graus admitidos (dolo – directo, necessário ou eventual – ou negligência grave) e causadora do estado de insolvência ou do agravamento deste, considerando verificados estes elementos e, por isso, dever ser reprovado o devedor sempre que e desde que ocorra qualquer dos factos indicados em qualquer das alíneas.
Nas diversas hipóteses previstas no nº 2, em função de cuja verificação se considera sempre culposa a insolvência (ou seja, sempre preenchido o conceito do nº 1), além de inilidível (jure et jure), por força da parte final daquela norma civilística, tal presunção abarca todos os demais elementos.
Não tem, portanto, sentido, quanto a elas, discutir-se se o nexo de causalidade deve ser provado como requisito autónomo, uma vez que na presunção ele está compreendido. Provados aqueles factos base e, obviamente, a situação de insolvência, a culpa dos administradores da pessoa colectiva ou da pessoa singular (nº 4 do artº 186º) e a relação causal entre a sua conduta censurável e aquele resultado presumem-se “sempre”, não podendo ser afastados por prova em contrário.
Neste sentido, designadamente, o Acórdão da Relação de Coimbra, de 07-02-2012 (4), de cujo sumário destacamos:
“II - A insolvência é culposa quando esse estado tiver criado ou agravado em consequência da actuação, dolosa ou com culpa grave, do devedor, ou dos seus administradores, de direito ou de facto, nos três anos anteriores ao início do processo de insolvência (artº 186 nº 1 do CIRE).
III - A qualificação da insolvência como culposa reclama, portanto, uma conduta ilícita e culposa do devedor ou dos seus administradores.
IV - A ilicitude do comportamento do devedor ou dos seus administradores reparte-se por elementos objectivos e subjectivos.
V - A culpa do devedor ou dos seus administradores decorre de um juízo de censurabilidade, em cuja formulação devem ser consideradas as condições que justificam que lhes seja dirigida essa censura.
VI - A censurabilidade da conduta é uma apreciação de desvalor que resulta do reconhecimento de que o devedor, ou os seus administradores, nas circunstâncias concretas em que actuaram, podiam ter conformado a sua conduta de molde a evitar a queda do primeiro na situação de insolvência ou agravamento do estado correspondente.
VII - A censurabilidade do comportamento do devedor ou dos seus administradores é um juízo feito pelo tribunal sobre a atitude ou motivação de um e de outros, segundo o que pode ser deduzido dos factos provados.
VIII - A lei considera sempre culposa a insolvência do devedor, que não seja pessoa singular, designadamente quando os seus administradores, de direito ou de facto, tenham destruído ou descaminhado, no todo ou em parte, o património do devedor ou tenham incumprido em termos substanciais a obrigação de manter contabilidade organizada (artº 186 nº 2 a) e h), 1ª parte, do CIRE).
IX - Trata-se, nitidamente, de uma presunção absoluta, inilidível ou iuris et de iure, dado que impõe um regime, não admitindo prova em contrário (artº 350 nº 2, in fine, do Código Civil).” (5)
E igualmente com interesse, designadamente, o Acórdão desta Relação de Guimarães, de 15-10-2015 (6):
- “2.É uniforme a interpretação de que o n.º 2 do artº 186 do CIRE elenca diversas situações em que o legislador presume, de forma taxativa e inilidível, ou seja, sem possibilidade de prova em contrário, que a insolvência é culposa.
- 3.E o legislador fê-lo porque a indagação do carácter doloso ou gravemente negligente da conduta do devedor, ou dos seus administradores, e da relação de causalidade entre essa conduta e o facto da insolvência ou do seu agravamento, de que depende a qualificação da insolvência como culposa, revela-se muitas vezes extraordinariamente difícil. Fê-lo para facilitar essa qualificação mas concretizou-o a partir de factos graves e de situações que exigem uma ponderação casuística, temporalmente balizadas pelo período correspondente aos três anos anteriores à entrada em juízo do processo de insolvência.
4.Lidando com uma presunção, sabemos que ela vai perdendo sustentação com um tempo excessivo decorrido entre o ato e o processo. Já se o ato ocorre próximo do processo ou durante o mesmo, a sua ligação à criação ou agravamento da insolvência é mais forte, sustentando melhor a presunção de culpa e o nexo de causalidade.”
Ora, não se vê como não considerar que a apelante ocultou o seu direito na herança por óbito dos seus pais, sendo irrelevante a intenção com que agiu, nos termos e para os efeitos do artº 186º, nº 2. Incumbia-lhe ter declarado esse direito, logo quando se apresentou à insolvência (artº 24º, nº 1, alínea e), o que não fez. E não só o ocultou, como dispôs dele em benefício de terceiros – os seus filhos.
O repúdio só teve lugar em 8 de maio de 2018, durante o período de cessão.
Se a apelante tivesse informado o tribunal como lhe competia da existência do direito à herança aberta por óbito dos seus pais, o mesmo teria sido apreendido para a massa insolvente. Declarada a insolvência o insolvente fica privado dos poderes de administração e disposição dos bens integrantes da massa insolvente. Apenas ficam subtraídos a este efeito, os bens insusceptíveis de apreensão para a massa insolvente que correspondem genericamente aos bens insusceptíveis de penhora (artº 736º e s do CPC) - o que não é o caso do direito a quinhão em património autónomo - e o eventual subsídio de alimentos (artº 84º, nº 1).
Se a apelante tivesse declarado como lhe incumbia o direito à herança, ficaria privada do direito de dispor desses bens, o que inclui o repúdio da herança.
E com a venda desse direito, muito provavelmente ficariam liquidadas ou liquidadas quase na íntegra as dívidas da insolvente, atento o valor das dívidas reclamadas e o valor que representava o quinhão da insolvente.
Diz a apelante que o repúdio poderia ter sido feito antes do início do processo da insolvência, não lhe podendo ser imputável o facto de ter sido feito só em 2018, dado que a escritura só foi feita em Janeiro de 2019 porque foi quando o comprador adquiriu meios económicos para o comprar.
Ora, desde logo o repúdio é independente da venda. Nada impedia que a escritura de repúdio tivesse tido lugar em momento anterior.
Face aos factos apurados é manifesto que a apelante ocultou do tribunal e do fiduciário o seu direito à herança e que dispôs desse direito em benefício de terceiros, ocultação de que o requerente só teve conhecimento após o despacho inicial de exoneração, desde logo porque, relativamente ao repúdio, a escritura só foi realizada em 8 de maio de 2018, já depois da insolvente ter sido notificada, em 16.10.2017 pelo fiduciário para juntar a declaração para efeitos de IRS relativa ao ano de 2016 e demais elementos que considerou necessários para a elaboração do relatório relativo ao 1º ano de cessão – outubro de 2016 setembro de 2017 (carta junta com o requerimento do fiduciário de 1303.2018), o que levou o fiduciário a afirmar que o repúdio teve lugar porque inquiriu a apelante sobre as rendas declaradas na declaração para efeitos de IRS. Tratam-se pois de factos não só de conhecimento superveniente, como de verificação superveniente.
O facto dos efeitos do repúdio retroagirem à data da abertura da sucessão (artº 2062º do CC) não altera o que ficou dito. Independentemente da data a que retroagem os seus efeitos, o repúdio ocorreu na pendência do processo de insolvência. Mas ainda que a apelante tivesse repudiado a herança imediatamente após a morte do seu pai, ainda assim tal ato relevaria porque praticado nos três anos que antecedem o início do processo de insolvência, o que não afastaria a aplicação ao caso do disposto no artº 186º, nº 2.
O despacho recorrido é pois de manter.