IRelatório.
1. M..., empregada administrativa do Banco de Portugal, requereu, em 15 de Setembro de 1986, ao Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados a sua inscrição como advogada estagiária, referindo expressamente aquela sua profissão.
Tal pedido veio a ser deferido por deliberação do Conselho Distrital de Lisboa de 29 de Outubro de 1986 e confirmada por deliberação do Conselho Geral de 12 de Novembro de 1986.
- 2.Em 25 de Julho de 1988, requereu a M... a inscrição como advogada, reiterando que mantinha a mesma situação profissional. Mas, por deliberação de 15 de Novembro de 1988, o Conselho Distrital de Lisboa indeferiu o pedido de inscrição, por considerar a requerente abrangida pela incompatibilidade prevista no artigo 69º, nº 1, alínea i), do Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pelo Decreto-Lei nº 84/84, de 16 de Março, isto é, por entender que ela era agente de um serviço público de natureza central. Daquela deliberação recorreu a mesma para o Conselho Superior da Ordem dos Advogados, que, por acórdão de 7 de Julho de 1989, negou provimento ao recurso e manteve a deliberação recorrida.
- 3.Inconformada, recorreu a M... para o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, que, por Sentença de 10 de Outubro de 1990, negou provimento ao recurso. Deste aresto interpôs a mesma novo recurso, desta vez para o Supremo Tribunal Administrativo, referindo, em síntese, nas respectivas alegações, que, não tendo havido alteração na sua situação profissional, a sua admissão como advogada estagiária constituiu-a no direito a exercer a actividade de advogada estagiária e a, "nesse mesmo contexto fáctico e feito o estágio com boa informação, nos termos do artigo 170º, nº 1, do E.O.A., ter acesso à categoria de advogada, que não é mais que a continuação e o desenvolvimento da primeira situação em que foi investida". Ainda segundo a argumentação aduzida nas referidas alegações, a admissão como advogada estagiária "implicou a verificação de requisitos que foram atributivos de direitos para a recorrente: primeiro, o de exercer as actividades de advogada estagiária, segundo, o de, feito o estágio, ter acesso à plenitude da profissão de advogado". Finalmente, refere a recorrente naquela peça processual que "a interpretação dada a qualquer norma do E.O.A., maxime ao seu artigo 170º, que permita sustentar a possibilidade da revisão dos pressupostos em que assentou a admissão como advogado estagiário, constitui violação do princípio constitucional do respeito pelos direitos adquiridos, que o artigo 266º, nº 1, da Constituição reflecte".
- 4.Por Acórdão de 19 de Dezembro de 1991, o Supremo Tribunal Administrativo negou provimento ao recurso, confirmando a sentença recorrida. Naquele aresto, o Supremo Tribunal Administrativo rejeitou a questão de inconstitucionalidade suscitada, ponderando que "nada há na legislação vigente que imponha a inscrição obrigatória no quadro da Ordem dos Advogados aos advogados estagiários com aproveitamento ou que a inscrição seja concedida automaticamente após a efectivação do estágio com aproveitamento". Ainda segundo aquela instância, "o que a lei efectivamente prevê são duas inscrições distintas a apreciar e a conceder por órgãos diferentes e com implicações também diferentes. Trata-se, sem dúvida, de actos constitutivos de direitos. Mas direitos distintos e por isso não ocorre a violação do princípio do respeito pelos direitos adquiridos consagrado no artigo 266º, nº 1, da Constituição".
- 5.É daquele acórdão que vem interposto pela M... o presente recurso para o Tribunal Constitucional, ao abrigo da alínea b) do nº 1 do artigo 70º da Lei do Tribunal Constitucional (Lei nº 28/82, de 15 de Novembro).
No requerimento de interposição do recurso, apresentado na sequência do convite feito pelo Relator, nos termos do nº 5 do artigo 75º-A da Lei do Tribunal Constitucional, refere a recorrente que a norma cuja inconstitucionalidade se pretende que seja apreciada é "o nº 1 do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pelo Decreto--Lei nº 84/84, de 16 de Março, no entendimento que lhe é dado pela autoridade recorrida e pelas instâncias no sentido de que tal preceito permite, aquando da apreciação do pedido de inscrição do advogado estagiário como advogado, que a Ordem reveja a verificação dos requisitos em que assentou a admissão como advogado estagiário (ou, se se preferir, que a Ordem os aprecie de novo)". Mas "se se entender que tal sentido resulta da conjugação desse preceito com o disposto nos artigos 157º, 161º e 171º daquele Estatuto, como igualmente pode decorrer da decisão recorrida, a inconstitucionalidade dessa conjugação também deve ser apreciada". De acordo com o mesmo requerimento, as normas ou princípios constitucionais violados são os princípios constitucionais da "protecção da confiança e do respeito pelos direitos adquiridos pelos particulares e o artigo 266º, nº 1, da Constituição".
Nas alegações produzidas neste Tribunal, conclui assim a recorrente:
"1- Admitido um advogado estagiário com base no pressuposto de que detém certa qualidade de empregado, não pode, findo o estágio com boa informação, ser-lhe recusada a sua inscrição como advogado com fundamento em diferente interpretação da norma que avalia a compatibilidade dessa situação com o exercício da advocacia.
2- Entenderam a autoridade recorrida e as instâncias em sentido diverso, sustentando que, aquando da inscrição como advogado, pode ser reapreciada a verificação desse requisito, invocando em favor da sua tese o artigo 170º, nº 1, do EOA ou, se se entender nesse sentido, a conjugação de tal preceito com os artigos 157º, 161º e 171º do EOA.
3- Tal entendimento viola os princípios constitucionais da protecção da confiança e do respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, que estão inscritos no nosso modelo constitucional, reflectindo-se o segundo designadamente no artigo 266º, nº 1, da Constituição".
Por sua vez, o Conselho Superior da Ordem dos Advogados começou por suscitar, nas alegações aqui produzidas, a questão prévia da inadmissibilidade do recurso, por a recorrente não ter arguido a inconstitucionalidade de quaisquer normas do Estatuto da Ordem dos Advogados na petição de recurso contencioso para o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa. E conclui as suas alegações do modo que se segue:
"1- O presente recurso deverá ser rejeitado por não se poder considerar a questão de inconstitucionalidade por ele proposta como suscitada "durante o processo";
2- De todo o modo, o nº 1 do artigo 266º da Constituição não tutela a estabilidade das situações jurídicas criadas pela Administração na esfera jurídica dos administrados, mas sim a observância do princípio da legalidade administrativa;
3- Não parece, pois, invocável para os efeitos pretendidos pela recorrente;
4- Também não houve violação do princípio da protecção da confiança, desde logo porque o acto administrativo sujeito a impugnação contenciosa não destruiu quaisquer efeitos jurídicos gerados por acto anterior e ainda ....
5- ... porque, mesmo que o tivesse feito, essa conduta seria imposta pela reposição da legalidade ofendida pelo acto anterior e teria tido lugar no primeiro momento em que seria materialmente possível a conduta revogatória".
6. Corridos os vistos legais, cumpre apreciar e decidir.
IIFundamentos.
7. Como foi salientado, o recorrido iniciou as suas alegações pela invocação de uma questão prévia, traduzida na inadmissibilidade do recurso, por a recorrente não haver levantado tempestivamente a questão de inconstitucionalidade. Segundo o Conselho Superior da Ordem dos Advogados, a recorrente não arguiu, na petição do recurso contencioso administrativo, a inconstitucionalidade de quaisquer normas. Tal só veio a acontecer nas alegações do recurso por ela interposto para o Supremo Tribunal Administrativo e, na perspectiva do recorrido, "não estava já em tempo de o fazer, porque os recorrentes não podem levantar questões de direito nos recursos que interpõem das sentenças dos tribunais de primeira instância. A violação de preceitos constitucionais foi 'questão nova', de que o Supremo Tribunal Administrativo não podia conhecer, por o seu poder jurisdicional quanto à matéria da causa se esgotar para além do âmbito da matéria discutida e decidida na primeira instância (artigo 666º do Código de Processo Civil)".
Como as questões de inconstitucionalidade não foram devidamente suscitadas no "processo-pretexto", deve entender-se, na óptica do recorrido, que não se encontram reunidos os pressupostos previstos no artigo 70º, nº 1, alínea b), da Lei do Tribunal Constitucional.
Ouvida sobre a questão prévia, veio a recorrente dizer, em síntese, que "a Lei do Tribunal Constitucional (art. 70º) não exige que a inconstitucionalidade tenha sido suscitada desde a primeira intervenção da parte no processo, bastando-se com o facto de que tal inconstitucionalidade tenha sido materialmente suscitada durante o processo, como aqui manifestamente aconteceu".
Importa, por isso, começar por conhecer da assinalada questão prévia. É o que vai fazer-se.
7.1. O recurso de inconstitucionalidade previsto no artigo 280º, nº 1, alínea b), da Constituição e na alínea b) do nº 1 do artigo 70º da Lei do Tribunal Constitucional exige, para além dos pressupostos gerais, a verificação dos seguintes requisitos específicos:
- a)A suscitação durante o processo da inconstitucionalidade de uma ou de várias normas jurídicas;
- b)A aplicação ulterior pela decisão recorrida dessa norma ou normas jurídicas reputadas de inconstitucionais;
- c)A inadmissibilidade de recurso ordinário da decisão de aplicação, por a lei não o prever ou por já se haverem esgotado todos os que no caso cabiam.
Ao suscitar a questão prévia, o recorrido contestou a verificação,in casu,do primeiro requisito específico referido.
Constitui jurisprudência reiterada e uniforme deste Tribunal que aquele requisito deve ser entendido não em sentido meramente formal, tal que a inconstitucionalidade pudesse ser suscitada até à extinção da instância, mas num sentido funcional, tal que essa invocação haverá de ser feita em momento em que o tribunal a quo ainda possa conhecer da questão, ou seja, antes de esgotado o poder jurisdicional do juiz, o qual ocorre, em princípio, com a prolação da sentença. Noutros termos, a questão de inconstitucionalidade considera-se suscitada durante o processo sempre que seja invocada em momento em que o tribunal a quo ainda dela possa conhecer. Neste sentido, cfr., inter alia, os Acórdãos do Tribunal Constitucional nºs 90/85, 94/88, 318/90, 41/92 e 310/94, os primeiros quatro publicados no Diário da República, II Série, de 11 de Julho de 1985, 22 de Agosto de 1988, 15 de Março de 1991, e 20 de Maio de 1992, respectivamente, e o último ainda inédito).
7.2. No caso sub judicio, a questão de inconstitucionalidade da norma constante do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados foi suscitada pela primeira vez pela recorrente nas alegações do recurso para o Supremo Tribunal Administrativo. E, como já foi realçado, segundo entendimento do recorrido, a questão de inconstitucionalidade não foi oportunamente suscitada, pois a "violação de preceitos constitucionais foi 'questão nova', de que o Supremo Tribunal Administrativo não podia conhecer, por o seu poder jurisdicional quanto à matéria da causa se esgotar para além do âmbito da matéria discutida e decidida na primeira instância (artigo 666º do Código de Processo Civil)".
Acontece, porém, que, como resulta do artigo 207º da Lei Fundamental, a inconstitucionalidade é questão de conhecimento oficioso de qualquer tribunal, pelo que os interessados podem invocá-la em qualquer via de recurso ordinário que a decisão consinta. Como se consignou no Acórdão deste Tribunal nº 173/88 (publicado no Diário da República, II Série, de 30 de Novembro de 1988) e se repetiu nos citados Acórdãos nºs. 41/92 e 310/94, "se suscitada (a questão de inconstitucionalidade) pela primeira vez em alegações perante o Supremo Tribunal de Justiça, não há que considerá-la, pois, uma 'questão nova', que ao Supremo seja vedado apreciar: há sim, que conhecer dela".
Deve, por isso, entender-se que a natureza oficiosa do conhecimento da questão de inconstitucionalidade prevalece sempre em face do argumento da "questão nova", desde logo porque, em processo constitucional, basta que a decisão do tribunal aplique norma cuja inconstitucionalidade haja sido suscitada durante o processo, nos termos do disposto no artigo 70º, nº 1, alínea b), da Lei do Tribunal Constitucional, norma que aparece, de resto, em consonância com a alínea b) do nº 1 do abrigo 280º da Constituição.
Há, pois, que concluir pelo desatendimento da questão prévia invocada pelo recorrido.
8. Como flui das peças processuais, a recorrente defende o seu direito à inscrição como advogada, sustentando que o acto de admissão de um canditado "como advogado estagiário" é o acto constitutivo de direitos (constitutivo do status profissional), pelo que a inscrição como advogado fica apenas condicionada por uma actividade de controlo da administração, destinada a certificar o cumprimento de determinadas obrigações legais: frequência do estágio com "boa informação" (artigo 170º, nº 1, do Estatuto da Ordem dos Advogados).
Assim sendo, a admissão da recorrente como advogada estagiária constituiu-a no direito de exercer a actividade de advogada estagiária e a ter acesso à categoria de advogada, desde que verificadas as condições legais previstas no artigo 170º daquele Estatuto, e que a administração é apenas chamada a declarar verificadas ou não.
Ainda segundo a argumentação da recorrente, mantendo-se a mesma situação fáctica existente no momento da decisão sobre o pedido de inscrição como advogada, não é possível rever e alterar a decisão de não incompatibilidade efectivada no momento da inscrição como advogada estagiária, sob pena de violação do princípio constitucional da protecção da confiança (artigo 2º da Constituição) e do princípio do respeito pelos direitos adquiridos (artigo 266º, nº 1, da Lei Fundamental).
Em reforço da sua tese da proibição da alteração, aquando da decisão sobre a inscrição como advogado, da anterior decisão de verificação dos requisitos de admissão como advogado estagiário, nomeadamente de não existência de incompatibilidades, arguiu a recorrente, nas alegações do recurso para o Supremo Tribunal Administrativo, "a inconstitucionalidade da interpretação dada a qualquer norma, maxime ao artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, com base na qual se sustenta a possibilidade de, em sede de inscrição como advogado, se poder pôr em causa a verificação dos requisitos que permitiram a inscrição como advogado estagiário, desde que, naturalmente não se alterem os pressupostos fácticos de ambos os actos".
Verifica-se do trecho transcrito que a única norma cuja inconstitucionalidade a recorrente suscitou "durante o processo" foi a do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, na interpretação que lhe foi dada tanto na Sentença do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa de 10 de Outubro de 1990, como no Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 19 de Dezembro de 1991, isto é, com o sentido de que, no momento da decisão sobre a inscrição como advogado de um "advogado estagiário", é possível reapreciar a existência de incompatibilidades com o exercício da advocacia. Isto significa que não foi suscitada a inconstitucionalidade, "durante o processo", das normas dos artigos 157º, 161º e 171º do Estatuto da Ordem dos Advogados - de facto, estas normas só foram indicadas no requerimento de interposição do recurso para este Tribunal -, nem da norma da alínea i) do nº 1 do artigo 69º daquele Estatuto, que estabelece a incompatibilidade com o exercício da advocacia com as funções de "funcionário ou agente de quaisquer serviços públicos de natureza central, regional ou local, ainda que personalizados", incompatibilidade essa que, no caso da recorrente, foi considerado verificar-se. Com efeito, em parte alguma do processo, invocou a recorrente a inconstitucionalidade desta última norma, resultando antes dos autos que aquela não contesta a legitimidade constitucional da norma que prevê a incompatibilidade que lhe veio a ser reconhecida, mas apenas da norma que possibilita que uma incompatibilidade venha a ter-se por verificada no momento da decisão sobre a inscrição como advogado, quando essa mesma incompatibilidade foi tida por inexistente no momento em que foi proferida decisão favorável sobre a admissão como advogado estagiário.
Objecto do presente recurso de constitucionalidade é, pois, tão-só a norma do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, na interpretação acima assinalada.
9. A norma do artigo 170º da Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pelo Decreto-Lei nº 84/84, de 16 de Março, prescreve o seguinte:
"1 - A inscrição como advogado depende do estágio com boa informação.
2 - A boa informação no estágio depende do cumpri- mento do disposto nos artigos 165º e 166º".
Como se referiu, a recorrente entende que a norma transcrita é inconstitucional, por violação dos "princípios constitucionais da protecção da confiança e do respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, que estão inscritos no nosso modelo constitucional, reflectindo-se o segundo designadamente no artigo 266º, nº 1, da Constituição", se interpretada, tal como o foi pelas instâncias, com o sentido de que, no momento da decisão sobre a inscrição como advogado de um "advogado estagiário", é possível reapreciar a verificação de incompatibilidades com o exercício da advocacia, mantendo-se inalteráveis os pressupostos existentes aquando da decisão de admissão como "advogado estagiário".
Entende, porém, o Tribunal que a aludida norma não viola nem o princípio da protecção da confiança, ínsito no princípio do Estado de direito, consagrado nos artigos 2º e 9º, alínea b), da Constituição, nem o artigo 266º, nº 1, da Constituição. Vejamos porquê.
9.1. Interpretando o artigo 170º, nº 1, do Estatuto da Ordem dos Advogados, escreveu-se, em dado passo, no acórdão recorrido:
"O facto de anteriormente a recorrente ter sido admitida a estágio da advocacia não era de per si suficiente e decisivo para que, findo o estágio com boa informação, fosse imediatamente inscrita como advogada. Trata-se de dois actos distintos e não de actos sobre actos, pois constituem direitos bem diferentes. O primeiro consistiu no direito da recorrente efectuar um estágio e o segundo no direito ao exercício da profissão de advogado.
O acto que a admitiu como advogada estagiária definiu e declarou esta qualidade, que, porém, não pode transpor-se para outra situação, que é a de exercer a advocacia.
Não se pode, por isso, falar, em rigor, de acto revogatório. Daí que o artigo 18º da Lei Orgânica do Supremo Tribunal Administrativo (LOSTA) não tenha aplicação ao caso sub-judice,já que o acto administrativo impugnado pela recorrente não revogou o anterior acto de admissão desta ao estágio da advocacia.
Não obstante o primeiro acto de admissão se ter fundado, entre outros pressupostos, num juízo de compatibilidade, não estava impedido o Conselho Superior da Ordem dos Advogados de, no segundo acto,considerar, como veio a suceder, a ocorrência da incompatibilidade da alínea i) do nº 1 do artigo 69º do EOA.
Trata-se de dois actos administrativos distintos, como decorre da leitura dos artigos 157º e 161º do EOA, por um lado, e dos artigos 170º e 171º do mesmo EOA, por outro, e dos quais ressalta que se trata de duas deliberações autónomas, que desempenham funções distintas: admitir a fazer estágio e admitir ao exercício da profissão de advogado.
Não há, assim, que falar em "accertamento" na modalidade de uma verificação constitutiva, como pretende a recorrente quando sustenta que o exame do pressuposto da (in)compatibilidade teria integrado o conteúdo do acto de admissão ao estágio, já que a valoração da situação profissional da requerente de admissão ao estágio, para concluir se ocorre ou não incompatibilidade que impeça a inscrição, não obedece a qualquer propósito de atestação para efeito de criar uma certeza legal".
E um pouco mais à frente, debruçando-se sobre a questão de inconstitucionalidade suscitada pela recorrente, ponderou o acórdão aqui sob recurso:
"Tal inconstitucionalidade consubstanciar-se-ia na violação do princípio do respeito pelos direitos adquiridos pelos cidadãos, que o artigo 266º, nº 1, CRP reflecte e o artigo 18º da LOSTA concretiza.
Resulta do que acima se escreveu que não colhe a argumentação da recorrente, visto que não se trata do respeito por direitos adquiridos.
Na verdade, nada há na legislação vigente que imponha a inscrição obrigatória no quadro da Ordem dos Advogados aos advogados estagiários com aproveitamento ou que a inscrição seja concedida automaticamente após a efectivação do estágio com aproveitamento.
O que a lei efectivamente prevê são duas inscrições distintas a apreciar e a conceder por órgãos diferentes e com implicações também diferentes.
Trata-se,sem dúvida, de actos constitutivos de direitos. Mas direitos distintos e, por isso, não ocorre a violação do princípio do respeito pelos direitos adquirido consagrado no artigo 266º, nº 1, da Constituição".
9.2. O acórdão recorrido interpretou, como se viu, a norma do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados com o sentido de que a inscrição de um advogado estagiário como advogado é um acto autónomo em relação à inscrição de uma pessoa como advogado estagiário, já que se trata de actos que seguem procedimentos diferentes, obedecem a pressupostos diversos e produzem efeitos distintos - interpretação esta que é controversa, mas que não pode ser sindicada pelo Tribunal Constitucional, dado que não lhe cabe intervir ou resolver contendas doutrinais ou jurisprudenciais relacionadas com a interpretação de normas de direito ordinário, as quais escapam à sua função específica de controlo da constitucionalidade (cfr. o Acórdão deste Tribunal nº 370/93, publicado no Diário da República, II Série, de 2 de Outubro de 1993). [Uma interpretação oposta àquela é defendida, por exemplo, por João Pacheco de Amorim, A Liberdade de Escolha da Profissão de Advogado (Procedimento Administrativo de Concretização), Coimbra, Coimbra Editora, 1992, p. 47-49, para quem o acto de inscrição como advogado estagiário não é um acto constitutivo (autorização), mas meramente declarativo, uma vez que o exercício do direito está condicionado apenas a juízos de conhecimento vinculados, limitando-se o estagiário, findo o estágio, a pedir à Ordem que certifique o cumprimento das suas (dele estagiário) obrigações legais].
Assim sendo, se a inscrição de alguém como advogado estagiário não lhe confere automaticamente direito, uma vez terminado o estágio com boa informação, a ser inscrito como advogado, a recusa de inscrição dessa mesma pessoa como advogado, no caso de o órgão competente da Ordem dos Advogados detectar a existência de uma incompatibilidade com o exercício
da advocacia, não constitui violação do princípio da protecção da confiança, nem a revogação de qualquer direito adquirido. Equivale isto por dizer que a norma do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, interpretada nos termos assinalados, não infringe o princípio da protecção da confiança, decorrente do princípio do Estado de direito, referenciado nos artigos 2º e 9º, alínea b), da Constituição, nem o artigo 266º, nº 1, da Lei Fundamental, mesmo que se considere - o que não é seguro - que nele encontra guarida um verdadeiro e autêntico princípio constitucional de respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos.
10. Antes de terminar, apenas mais duas notas.
A primeira para referir que a norma do artigo 170º do Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pelo Decreto-Lei nº 84/84, de 16 de Março, foi alterada recentemente pelo artigo 1º da Lei nº 33/94, de 6 de Setembro - fenómeno que não tem, porém, qualquer repercussão no caso sub judicio, já que a norma aplicada no presente processo foi a constante da sua versão originária. A segunda para adiantar que o Tribunal Constitucional, no seu Acórdão nº 106/92 (publicado no Diário da República, II Série, de 15 de Julho de 1992), interpretou a norma da alínea i) do nº 1 do artigo 69º do Estatuto da Ordem dos Advogados no sentido de o conceito de "funcionário ou agente de quaisquer serviços públicos" não poder abranger certas classes de pessoas, como sejam, por exemplo, a classe dos "trabalhadores de empresas públicas não sujeitos ao regime geral da função pública". Nesta linha, o Tribunal Constitucional julgou inconstitucional, naquele aresto,por violação do artigo 13º da Constituição, a norma da alínea i) do artigo 69º do Estatuto da Ordem dos Advogados (Decreto-Lei nº 84/84, de 16 de Março), quando interpretada no sentido de abranger os trabalhadores das empresas públicas não sujeitos ao regime geral da função pública.
Mas, no presente processo, não pode o Tribunal Constitucional conhecer da questão da inconstitucionalidade daquele norma, uma vez que, como foi demonstrado, nunca a recorrente suscitou a sua inconstitucionalidade "durante o processo".