Acordam na 1.ª Secção Cível do Tribunal da Relação de Coimbra
J (…), residente (…), pediu a insolvência de JR (…) residente (…), .
Fundamentou o pedido na seguinte alegação:
- 1.Que o requerido, que é casado com a requerente, foi condenado a pagar, em processo de regulação das responsabilidades parentais, a cada uma das duas filhas do casal, a quantia de 150 euros, a título de alimentos, a partir de 20 de Junho de 2014;
- 2.Que o requerido não pagou qualquer prestação de alimentos desde Junho de 2014 até ao momento em que foi apresentado o presente pedido de insolvência;
- 3.Que o requerido está desempregado;
- 4.Que os factos demonstram que o requerido não cumpre, desde Junho de 2014, com a generalidade das suas obrigações;
- 5.Que o requerido está em situação de insolvência.
Citado, o requerido opôs-se ao pedido. Na sua defesa impugnou o valor dado à acção, alegou que a requerente não gozava de legitimidade para pedir a declaração de insolvência, dele, requerido, e impugnou a alegada situação de insolvência.
Após a realização da audiência de julgamento, foi proferida sentença que declarou a insolvência do requerido.
O requerido não se conformou com a sentença e interpôs o presente recurso de apelação, pedindo se revogasse a sentença com todas as consequências legais.
As razões pelas quais pede a revogação da sentença são, em resumo, as seguintes:
- 1.A recorrente é parte ilegítima, nos termos dos artigos 30.º, n.º 1, do CPC, e 20.º, n.º 1 do CIRE, devendo o recorrente ser absolvido da instância, cfr. Artigo 278.º, n.º 1, alínea d) do CPC;
- 2.O depoimento de S (…) e A (…) , como testemunhas, foi ilícito, nos termos dos artigos 496.º, 452.º e seguintes e 466.º do CPC e, por isso, não valorável;
- 3.Não está demonstrada a verificação dos elementos constitutivos da presunção do artigo 20.º, alínea b), do CIRE;
- 4.Está provada a razão do não pagamento, que não tem nada a ver com impossibilidade, afastando o artigo 3.º do CIRE;
- 5.Estão provados nos autos património e rendimentos de sobra para pagar a dívida alegada;
- 6.É excessivo por desproporcionado requerer a insolvência de alguém que tem património e rendimentos mais do que suficientes para pagar a dívida integralmente, sem previamente seguir qualquer dos meios normais de cobrança do crédito.
Não houve resposta da requerente.
O recurso suscita fundamentalmente as seguintes questões:
- 1.Saber se a sentença decidiu correctamente quando afirmou que a requerente gozava de legitimidade para pedir a declaração de insolvência;
- 2.Saber se a sentença decidiu correctamente quando afirmou que estava verificada presunção de insolvência prevista no artigo 20.º, n.º 1, alínea b);
- 3.Saber se o depoimento de S (…) e A (…) , como testemunhas, é ilícito porque, na realidade são partes ou devem ser equiparadas às partes;
- 4.Saber se é desproporcionado requerer a insolvência de alguém que tem património e rendimentos mais do que suficientes para pagar a dívida, sem previamente seguir qualquer dos meios normais de cobrança do crédito.
Não tendo havido impugnação da decisão relativa à matéria de facto e não havendo razões para a alterar oficiosamente, julgam-se provados os seguintes factos discriminados na sentença:
- 1.A requerente J (…), era esposa do requerido.
- 2.Requerente e requerido têm duas filhas, S (…) que nasceu em ...de Fevereiro de 1996, e A (…), que nasceu em .... de Abril de 1997.
- 3.A requerente intentou, em 29 de Fevereiro de 2012, uma acção de regulação das responsabilidades parentais, que correu termos sob o n.º 435/13.9TMPRT-A na Comarca do Porto – Instância Central – 1.ª Secção de Família e Menores – J1.
- 4.Na sentença proferida no âmbito desta acção, em 3 de Setembro de 2015, foi fixada pelo Tribunal uma prestação mensal, a pagar pelo requerido a título de alimentos, a cada uma das filhas, no valor de € 150,00, com início em 20 de Junho de 2014.
- 5.O requerido, desde essa data até ao presente, não liquidou nenhuma prestação.
- 6.O requerido é dono de uma fracção autónoma designada pela letra “B” do prédio urbano inscrito na matriz predial urbana da freguesia de (...) , concelho de (...) , sob o artigo (...) .º, e descrito na Conservatória do Registo Predial de (...) sob o n.º (...) .
- 7.Esta fracção está onerada com uma penhora registada a favor da Autoridade Tributária – Serviço de Finanças do (...) – 5 no valor de € 54.079,67.
- 8.À fracção “B” do prédio urbano inscrito na matriz predial da freguesia de (...) , concelho de (...) , sob o artigo (...) .º, foi atribuído pelo Serviço de Finanças o valor patrimonial de € 102.770,35.
- 9.O património comum do casal que foi formado pela requerente e pelo requerido é integrado por uma fracção autónoma designada pela letra “K” do dito prédio urbano inscrito na matriz predial da freguesia de (...) , concelho de (...) , sob o artigo (...) .º, e descrito na Conservatória do Registo Predial de (...) sob o n.º (...) .º.
- 10.A esta fracção foi atribuído o valor patrimonial de € 110.040,00.
- 11.O requerido esteve emigrado, até muito recentemente, na (...) .
- 12.Estava ausente do país quando foi proferida sentença no processo n.º 435/13.9TMPRT-A.
- 13.Neste processo, o requerido invocou, para justificar o não pagamento das prestações de alimentos, a impossibilidade de transferir fundos da (...) , e falta de rendimentos suficientes para o respectivo pagamento, tendo requerido que o mesmo fosse assegurado pelo Fundo de Garantia de Alimentos devidos a Menores.
- 14.Não tendo o requerido pago as custas do processo em que fora condenado, o Ministério Público não instaurou execução por custas em virtude de serem desconhecidos bens ou rendimentos do devedor.
Factos julgados não provados
- a)Que o valor do imóvel, actualmente, atendendo à conjuntura económica que o país atravessa, tem valor inferior ao valor do passivo assumido pelo requerido;
- b)Que o requerido está desempregado;
- c)Que foi no âmbito da sua ausência que foi condenado, sem oposição, em alguns processos da Segurança Social e Autoridade Tributária;
- d)Que Entendendo que nada deve a estas entidades, o requerido está a apurar o estado destes processos e estudar as melhores soluções para se defender deles;
- e)Que o requerido não paga os alimentos porque os acha injustos e por entender que, a serem pagos, o devem ser às filhas.
Descritos os factos, passemos à resolução das questões supra enunciadas.
Como resulta do acima exposto, o recurso suscita várias questões. Quando assim suceda, o tribunal deve conhecê-las segundo a ordem imposta pela sua precedência lógica. Tendo presente este princípio [enunciado no n.º 1 do artigo 608.º a propósito do conhecimento das questões processuais que possam determinar a absolvição da instância], impõe-se conhecer, em primeiro lugar, da questão da legitimidade da requerente para pedir a declaração de insolvência do requerido. Com efeito, se a questão obtiver resposta negativa, a consequência é a absolvição do requerido da instância, por aplicação combinada do n.º 2 do artigo 576.º do CPC com a alínea e) do artigo 577.º do mesmo diploma. E se o requerido for absolvido da instância ficará prejudicado o conhecimento das restantes questões suscitadas pelo recurso. Questões que, com excepção da relativa à ilegalidade do depoimento de S (...) e A (...) como testemunhas, contendem com o mérito da sentença recorrida.
Legitimidade da requerente para pedir a declaração de insolvência
A sentença sob recurso resolveu a questão da legitimidade suscitada pelo requerido na oposição, no sentido da legitimidade da requerente, dizendo, em resumo, o seguinte: se o progenitor convivente detinha legitimidade para reclamar coercivamente, em processo executivo singular, o pagamento das prestações de alimentos devidas ao filho maior ou emancipado, vencidas durante a menoridade ou após este atingir a maioridade, deveria poder igualmente requerer a insolvência deste quando tal cobrança em execução singular se revelasse inviável. Com efeito – prosseguiu a decisão - sendo o processo de insolvência um processo de execução universal (art.º. 1.º do Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas), ao requerer a declaração de insolvência o progenitor convivente estava a exercer o crédito do filho maior, em substituição processual, como estaria na execução singular. Negar-lhe tal possibilidade, quando pode ter – como tinha no caso – um título executivo exercitável, redundaria numa diferenciação que se julga injustificada quando a execução singular estivesse destinada ao insucesso.
Salvo o devido respeito, os argumentos usados para justificar a legitimidade da autora não têm amparo na lei.
A resposta à questão de saber quem tem legitimidade para uma acção é dada pela lei ou de modo directo, mediante a indicação dos sujeitos que podem propor a acção, ou de maneira indirecta, considerando que tem legitimidade os sujeitos da relação material controvertida, tal como é configurada pelo autor (n.ºs 1 e 2, e 2.ª parte do n.º 3 do artigo 30.º do CPC).
No caso, o Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas [CIRE] dá resposta directa à questão de saber quem tem legitimidade para requerer a declaração de insolvência de um devedor no n.º 1 do artigo 18.º, no artigo 19.º e no n.º 1 do artigo 20.º. Assim:
- 1.O n.º 1 artigo 18.º atribuiu legitimidade ao devedor para requerer a declaração da sua insolvência;
- 2.O artigo 19.º estabelece que, não sendo o devedor uma pessoa singular capaz, a iniciativa da apresentação à insolvência cabe ao órgão social incumbido da sua administração, ou, se não for o caso, a qualquer um dos seus administradores;
- 3.O n.º 1 do artigo 20.º atribuiu legitimidade para requerer a declaração de insolvência de um devedor a quem for legalmente responsável pelas suas dívidas, a qualquer credor e ao Ministério Público, em representação das entidades cujos interesses lhe estão legalmente confiados.
Segue-se das normas acabadas de indicar que os sujeitos legitimados para pedir a declaração de insolvência de um devedor são os seguintes:
- 1.O próprio devedor;
- 2.Aqueles que forem legalmente responsáveis pelas suas dívidas;
- 3.Qualquer credor;
- 4.O Ministério Público, em representação das entidades cujos interesses lhe estão legalmente confiados.
Visto que a requerente invocou expressamente a qualidade de credora do requerido para pedir a declaração de insolvência dele [artigo 6.º da petição inicial], era por referência a tal qualidade que devia ser aferida a legitimidade dela.
Quanto aos factos a ter em conta para tanto, eles eram constituídos pelos que a autora alegara na petição. Com efeito, segundo o n.º 1 do artigo 25.º do CIRE, quando, como sucedia no caso, o pedido proviesse de credor, o requerente da declaração de insolvência devia justificar na petição a origem, natureza e montante do seu crédito. Esta solução está em conformidade com a circunstância de a legitimidade que está em causa no n.º 1 do artigo 20.º ser a legitimidade processual e não a legitimidade substantiva [a favor deste entendimento cita-se Catarina Serra, Lições de Direito da Insolvência, Almedina, página 117].
Tendo em conta os factos alegados na petição, a requerente não era credora do requerido. Com efeito, a dívida cujo incumprimento se imputava a ele, era uma dívida de alimentos às filhas do casal, já de maioridade à data do pedido da declaração de insolvência, S (…), nascida em 2/2/1996, e A (…), nascida em 3/04/1997. Dívida que tinha como título a sentença condenatória proferida em 3 de Setembro de 2015, na acção de regulação das responsabilidades parentais das filhas do casal, que correu termos no juízo de Família e Menores do Porto sob o n.º 435/13.9TMPRT-A. Resultava, assim, da petição que quem era credor eram as filhas da requerente e do requerido.
E assim, uma vez que, segundo os factos que a própria requerente alegou na petição, não era ela quem era a credora do requerido, devia o tribunal a quo declará-la parte ilegítima para requerer a declaração de insolvência e, em consequência, absolver o réu da instância, conforme prescreve a alínea d) do n.º 1 do artigo 278.º do CPC, aplicável ao processo de insolvência por remissão do n.º 1 do artigo 17.º do CIRE.
A decisão recorrida, ao afirmar a legitimidade da requerente com os fundamentos acima expostos, argumentou como fosse de equiparar, para efeitos de legitimidade, o processo de insolvência ao processo de execução instaurado pelo progenitor convivente, para pagamento das prestações de alimentos devidos ao filho maior ou emancipado, vencidas durante a menoridade ou após este atingir a maioridade.
E faz esta equiparação com base na seguinte lógica: sendo o processo de insolvência um processo de execução universal, ao requerer a declaração de insolvência o progenitor convivente está a exercer o crédito do filho maior, em substituição processual, como estaria na execução singular; negar-lhe a possibilidade de requerer a declaração de insolvência, quando tem um título executivo exercitável, redundaria numa diferenciação injustificada, quando a execução singular estivesse destinada ao insucesso.
Salvo o devido respeito, esta equiparação não tem fundamento.
Em primeiro lugar, não é exacto dizer-se que, sendo o processo de insolvência um processo de execução universal (art.º 1.º do CIRE), ao requerer a declaração de insolvência, o progenitor convivente está a exercer o crédito do filho maior, em substituição processual, como estaria na execução singular. Com efeito, apesar de o n.º 1 do artigo 1.º do CIRE afirmar que o processo de insolvência é um processo de execução universal, o pedido de declaração de insolvência não é assimilável ao requerimento executivo que dá início à execução singular para pagamento de quantia certa. Socorrendo-nos das palavras de Catarina Serra, Lições de Direito da Insolvência, Almedina, página 104 “no pedido de declaração de insolvência não se evoca um direito de crédito para o efeito de conseguir a satisfação através do património do devedor (…). Aquilo que o autor, seja ele qual for, pretende é, invariavelmente, a obtenção de uma sentença judicial que desencadeie o funcionamento dos mecanismos jurídicos adequados às necessidades especiais de tutela criadas pela situação. Esta, portanto, sempre em causa o exercício de um direito de acção judicial-declarativa e não o exercício de um poder de execução”. Mais à frente, página 115, escreve: “… de modo algum requerer a declaração de insolvência equivale a … requerer a execução”.
Em segundo lugar não é pertinente invocar, no caso, a situação da execução singular destinada ao insucesso visto que a requerente não baseou o pedido de insolvência em tal circunstância. Recorde-se que, nos termos da alínea e) do n.º 1 do artigo 20.º do CIRE, o insucesso da execução singular que fundamenta o pedido de insolvência há-de consistir na “… insuficiência de bens penhoráveis para pagamento do crédito do exequente verificada em processo executivo movido contra o devedor”.