IIIO DIREITO.
Como é sabido, são as conclusões da alegação do recorrente que delimitam o objecto do recurso, ou seja, as questões a conhecer por este Tribunal de recurso (artºs 684º, nº 3 e 690º, nº 1 do C.P.C.).
No caso sujeito, as questões a resolver circunscrevem-se à única de saber se, face aos factos assentes, a Ré deve ser condenado a pagar ao A. a quantia em dinheiro por este pedida e juros.
Escreveu-se na sentença apelada, a dada altura:
No decurso das suas relações comerciais, “estabeleceu-se um pacto de conta corrente contabilística, do qual decorrem obrigações para ambas as partes, obrigando-se o Autor a aceitar pagamentos parciais, diferimento nos pagamentos, reformas de letras, etc. e a Ré a pagar o preço das mercadorias fornecidas e a suportar as despesas originadas por esses benefícios.
Pretende o A. que a R. seja condenada a pagar o montante peticionado e respeitante a materiais e serviços por si prestados bem como a quantia resultante da reforma de letras.
Os materiais e os fornecimentos em causa são os constantes das facturas juntas aos autos e que constam da conta-corrente.
No caso sub-iudice apenas resultou provado que o Autor emitiu as facturas constantes dos autos e em nome da R. e que terá fornecido a esta diversos materiais.
Contudo, não logrou provar o fornecimento constante das facturas juntas aos autos e cujo montante é peticionado.
Em face do exposto, e uma vez que o Autor não logrou provar os factos constitutivos do seu direito, há que julgar a presente acção improcedente”.
Enquanto isto, sustenta o A. que os factos bem justificam a condenação da Ré a pagar-lhe o montante peticionado com base num contrato de conta corrente existente entre as partes.
Que dizer?
O A. não tem razão quando sustenta existir entre as partes um contrato de conta corrente.
É que uma coisa é o denominado contrato de conta corrente e outra, diversa, a forma contabilística de exprimir relações comerciais.
A mera circunstância de o A. elaborar uma conta corrente onde lança todos os movimentos a crédito e a débito que expressam as relações entre ele e a Ré, nada esclarece.
Tal processo contabilístico de escriturar as transacções, em rubricas de "deve" e "haver", "débitos" e créditos" é comum a comerciantes e não comerciantes.
Com efeito, confunde-se na prática, frequentemente, o contrato de conta corrente com o processo de escrituração também chamado de conta corrente, feita em papel com riscado razão ou riscado de contas correntes, ou seja, com colunas próprias para o débito e para o crédito, processo normalmente usado nas relações comerciais e a que costuma chamar-se de conta corrente, mas não tem aqui o significado de contrato, antes o de simples forma contabilística (de conta corrente) a que seria mais correcto chamar contas de "Devedores" e "Credores".
O processo de escrituração em forma contabilística espelha as relações comerciais, designadamente as compras e vendas de mercadorias, registadas nos livros em lançamentos de débitos e créditos, mas nunca um contrato de conta corrente, no sentido técnico-jurídico de estipulação, acordo ou convenção entre as partes no sentido de lançarem a débito e a crédito os valores que reciprocamente tivessem de ou viessem a ter de entregar uma à outra e de se exigirem apenas o saldo final que se viesse a apurar.
Uma coisa é, portanto, a conta corrente contabilística, outra, diversa, é o contrato de conta corrente.
Este é definido nestes termos:
Dá-se o contrato de conta corrente, regulado nos artºs 344º e 350º do Cód.Comercial, todas as vezes que duas pessoas, tendo de entregar valores uma à outra, se obrigam a transformar os seus créditos em artigos de “deve” e “há-de haver”, de sorte que só o saldo final resultante da sua liquidação seja exigível.
Através dele duas pessoas obrigam-se a inscrever em partidas de débito e crédito valores correspondentes a remessas de numerário ou de outras mercadorias que reciprocamente se façam.
As partes não se vinculam a fazer entregas de dinheiro ou de mercadorias, mas sim a converter os respectivos valores em artigos de deve e haver; por isso, os objectos do contrato são os lançamentos e não as remessas, pois que a estas as partes se obrigam. Uma vez feitas, o crédito resultante não é isoladamente exigível, porque tem de ser levado à conta e balanceado com os débitos em contrapartida.
Como consequência, nenhum dos contraentes guarda a faculdade de reclamar de outro qualquer crédito isoladamente, mas antes o saldo que a conta apresentar, no final, ou no termo convencionado, ou quando ficar encerrada em razão de qualquer causa determinante do vencimento antecipado das obrigações.
O que caracteriza este contrato não é a forma de contabilizar, mas a convenção, o ajuste, a estipulação, prévia entre as partes que devem (ou vão) entregar valores ou mercadorias uma à outra, no sentido de transformar os créditos e débitos em recíprocos artigos de “deve” e “haver”, sendo exigível apenas o saldo final e não a mera expressão escritural, contabilística e gráfica dessas entregas recíprocas, ainda que formalmente como conta-corrente.
Tal contrato nada tem a ver com a conta corrente contabilística (que é tão só o processo de registo contabilístico de operações efectuadas a crédito e débito), pela qual se exprime numericamente o movimento ou resultado de qualquer operação ou transacção, que por sua vez se traduz num saldo credor ou devedor; por outras palavras, não se confunde com a forma técnica de o comerciante, sem intervenção do seu cliente ou fornecedor, registar numericamente o movimento das suas transacções, designadamente fornecimentos ou empréstimos e respectivas amortizações, ou seja, com a técnica de escrituração, através de descrições genéricas de lançamentos em forma de conta corrente, com que ele, unilateralmente, vai exprimindo o seu giro.
Como se escreveu no douto Acórdão da Rel. de Coimbra de 23/2/1994, “o facto de se celebrarem reciprocamente transacções e estas serem escrituradas em conta corrente não implica necessariamente a existência de um contrato de conta corrente” (BMJ 434-697).
Alega o A., de essencial:
- -No exercício da sua actividade comercial, o Autor, a pedido da Ré, prestou vários serviços de pichelaria à Ré (artº 3º da P.I.);
- -Além dos serviços prestados (mão de obra), o Autor forneceu ainda os materiais necessários à sua prestação, constando datas e preços das respectivas facturas relacionadas na conta corrente que se junta e se dá por reproduzida para todos os efeitos legais (artº 4º);
- -Os serviços (mão de obra) e os fornecimentos (materiais constantes das facturas) e despesas originadas com reforma de letras somam a quantia global de 112.066,87 € (22.467.390$00) (artº 6º);
- -Desse montante, o Autor recebeu já da Ré a quantia de 95.353,08 € (19.116.577$00) (artº 7º);
- -Existe, assim um saldo a favor do Autor no montante de 16.731,79 €, conforme consta da conta corrente que se junta e se dá por reproduzida para todos os efeitos legais (artº 8º);
- -Além das importâncias indicadas na conta corrente e referidas em 6º, o Autor recebeu ainda da Ré a quantia de 1.496,39 € (300.000$00), através de depósito efectuado em 3/9/2001, quantia que não consta da conta corrente (artº 9º);
- -Pelo que deve a Ré ao Autor a quantia de 15.217,40 € (artº11º);
- -Em virtude de dispor de dois títulos executivos (uma letra de câmbio do montante de 2.809,23 € e outra no valor de 1.995,19 €), o Autor propôs nesse Tribunal contra a Ré duas execuções, pelo que na presente acção apenas pede o montante de 10.412,98 €
Com a expressão “conta corrente”, que quereria significar o autor?
A ser o contrato de conta corrente o fundamento do pedido do A., como nos parece, e se vê das suas conclusões de recurso, então deveria ele ter carreado na petição inicial os factos atinentes à caracterização desse contrato, tal como o definem os arts. 344° e 350° do C. Com.
Desde logo, deveria alegar a convenção, o ajuste entre as partes, a vontade recíproca e juridicamente vinculante de ambas, no sentido da transformação dos seus créditos em artigos de "deve" e "há-de haver", com a exigibilidade apenas do saldo final para o período de vigência do contrato, isto é, mediante a compensação recíproca de créditos e débitos, com a exigibilidade da diferença.
O que não fez.
Daí que a acção nunca poderia proceder.
Daí também que não tenha cabimento vir agora falar em contradição entre os factos provados e a sentença ou em errada aplicação do direito.
Improcedem, em conclusão, as respectivas conclusões.
IVPelo exposto, acordam em julgar improcedente a apelação e em confirmar a sentença recorrida.
Custa pelo apelante.
Porto, 18 de Maio de 2004
Durval dos Anjos Morais
Mário de Sousa Cruz
Augusto José Baptista Marques de Castilho