0963/03 - Supremo Tribunal Administrativo
Supremo Tribunal AdministrativoSTA
Relator: Costa Reis
Processo: 0963/03
Acórdão
Descritores: Recurso contencioso, Acto interno, Auto-estrada, Comparticipação nas despesas de portagem, Rejeição do recurso contencioso
Votação: Unanimidade
Nr Convencional: JSTA0005606
Nr Documento: SAP200506160963
Juízes: Antonio SamagaioRosendo Dias JoséPais BorgesSantos BotelhoMaria Angelina DominguesAzevedo MoreiraAngelina DominguesAntónio Madureira
Fontes: DGSI: https://www.dgsi.pt/jsta.nsf/35fbbbf22e1bb1e680256f8e003ea931/370d2fc5dc04d33780257031004c1018
Sumário
I – Só são susceptíveis de recurso contencioso os actos administrativos que lesem direitos ou interesses legalmente protegidos dos administrados (artigo 268.°, n.° 4 da CRP). II - Actos administrativos são as decisões dos órgãos da Administração que, ao abrigo de normas de direito público, visem produzir efeitos jurídicos numa situação individual e concreta (artigo 120.° do CPA). III - Não é acto administrativo o despacho de um Secretário de Estado que, na sequência de uma exposição de uma concessionária de auto-estradas - com vista a obter o regime de comparticipação do custo das portagens concedido à B... pelo DL 130/2 000, de 13/7 - informou que não era intenção do Governo tornar extensiva a outras concessionárias a comparticipação criada pelo referido diploma legal. IV — E não pode ser assim qualificado porque, por um lado, não se trata de uma verdadeira decisão administrativa, isto é, de um acto praticado no exercício de um poder administrativo ao abrigo de normas de direito público e, por outro, os interesses que ele atingiu não podem ser configurados como interesses legalmente protegidos, isto é, como interesses cuja tutela pode ser feita através da interposição do recurso contencioso. V — Não podendo assim ser considerado tal acto não é contenciosamente impugnável (artigo 268.°, n.° 4, da CRP, e 25.°, n.° 1, da LPTA), e, porque assim, o recurso dele interposto é manifestamente ilegal, pelo que deve ser rejeitado (artigo 24.°, alínea b), da LPTA e 57.°, § 40 do RSTA).
Texto
Acordam no Pleno da Secção de Contencioso Administrativo do STA : A..., recorre do Acórdão da 2.ª Subsecção deste Tribunal que, com fundamento na sua manifesta ilegalidade, rejeitou o recurso contencioso que tinha interposto do despacho do Sr. Secretário de Estado das Obras Públicas (doravante SEOP), de 6/03/2003, que não satisfez a pretensão que lhe dirigira no sentido de ser lhe ser concedido o benefício anteriormente atribuído à B..., por entender que o mesmo não consubstanciava um acto administrativo lesivo de direitos. Inconformada, a Recorrente agravou para este Tribunal rematando as suas alegações do seguinte modo : O acórdão recorrido incorre em erro e julgamento, ao considerar que o pedido formulado pela Recorrente, no sentido de ver aplicado em seu benefício o regime de comparticipação no pagamento de taxas de portagens, é, em bom rigor, um pedido de alteração da legislação vigente, daí extraindo a conclusão de que o acto recorrido (proferido em resposta ao pedido da Recorrente) não configuraria um acto administrativo recorrível, mas apenas a manifestação de uma intenção. Com efeito, contrariamente ao sustentado no douto Acórdão recorrido, o pedido da Recorrente não consubstancia um pedido de alteração legislativa, mas antes um pedido de interpretação e aplicação da norma que estabelece o regime de comparticipação, em conformidade com o princípio constitucional da igualdade. Mas, ainda que o pedido formulado pela Recorrente implicasse uma alteração legislativa, o que não se concede e só por expresso dever também aí o acto do SEOP não deixaria de ser qualificável como um acto lesivo dos direitos e interesses legítimos da Recorrente. Quer o IEP, quer o SEOP, enquanto Administração, estão investidos de uma competência fiscalizadora da validade do direito que aplicam, competindo-lhes, nomeadamente, aferir se uma dada norma a aplicar ao caso concreto se mostra ou não conforme com os padrões de validade a que se encontra sujeita, maxime a respectiva conformidade com o texto constitucional. No que concerne ao SEOP, é o próprio art.º 199.º, al. f), da CRP que prescreve uma expressa competência de defesa da legalidade democrática, em harmonia com a sua qualidade de órgão superior da Administração Pública capaz de fazer sempre prevalecer o seu juízo de validade, ou de invalidade do direito, relativamente aos juízos de validade efectuados pelas restantes estruturas organizativas sujeitas aos poderes governamentais de intervenção intra-administrativa. O SEOP detinha competência para fiscalizar a constitucionalidade do DL n.º 130/2000 , ao abrigo do art.º 199.º, al. f), da CRP, e para interpretar o mesmo em conformidade com a CRP, como é, aliás, admitido pela generalidade da Doutrina jus-publicista. Como resulta do Preâmbulo do DL n.º 130/2000 , e como é sublinhado no Parecer n.º 41/2004, da Procuradoria Geral da República, a comparticipação pelo Estado no custo das taxas de portagem da rede de auto-estradas da B..., é corolário de uma medida económica geral governativa de diminuição do encargo a suportar pelos utilizadores, como forma de reposição do seu poder de compra em resultado do aumento dos combustíveis. A limitação originária deste regime de comparticipação à concessionária B... justifica-se por, à data da feitura do Decreto-Lei n.º 130/2000 , a B... ser praticamente a única concessionária de auto-estradas abertas ao público em Portugal. Se o Decreto-Lei n.º 130/2000 pode ser considerado como originariamente não inconstitucional, a verdade é que a abertura ao público das auto-estradas pela ora Recorrente acabou por colocar a concessionária B... numa situação de privilégio injustificado, por ser a única a beneficiar desta ajuda do Estado. Dado que os factos justificativos do regime de comparticipação estatal se mantêm (mormente no tocante ao preço do petróleo), como se infirma pelo facto deste normativo não ter sido revogado até à data, impunha-se ao SEOP estender o regime de comparticipação à ora Recorrente, sob pena de perpetuar uma situação de inconstitucionalidade na interpretação e aplicação do DL n.º 130/2000 . Face à detecção de uma omissão inconstitucional superveniente o SEOP deveria ter preenchido a situação de lacuna mediante a aplicação analógica da regulamentação parcial positiva às situações indevidamente desconsideradas. Se, face a um requerimento da Recorrente, solicitando a extensão do regime de comparticipação previsto no DL n.º 130/2000 , o SEOP responde que não é intenção do Governo alargar o respectivo regime, então, está-se perante uma negação da pretensão da Recorrente, pois o SEOP podia, e devia, ter integrado a lacuna legal. Dizer que não é intenção, que é intenção, ou que o Governo não vai aplicar esse regime à Recorrente, é absolutamente indiferente do ponto de quem recorre, pois nenhuma destas hipóteses satisfaz a pretensão da Recorrente. Um despacho obrigatório de uma pretensão radicada na existência de um direito subjectivo público à aplicação do regime de comparticipação previsto no DL n.º 130/2000 (por força do princípio da igualdade), constitui um acto administrativo lesivo dos direitos da Recorrente, e portanto, contenciosamente, impugnável. Apesar do Despacho do SEOP não ter sido formalmente dirigido à Recorrente, acabou por materialmente sê-lo, já que a resposta do IEP consiste na simples comunicação do referido Despacho, esse sim verdadeiramente lesivo dos direitos subjectivos ou interesses legítimos da Recorrente. Os órgãos administrativos gozam de um poder genérico de controlo da constitucionalidade das normas que aplicam, e sempre que entenderem que as mesmas são inconstitucionais, devem desaplicá-las. A não desaplicação de uma norma inconstitucional pelo SEOP constitui um acto lesivo dos direitos da Recorrente, pelo que é recorrível ao abrigo dos artigos 268.º, n.º 4, da CRP e 25.º, n.º 1, da LPTA. Sem conceder, mesmo os Autores que rejeitam a existência de uma competência genérica da Administração Pública para desaplicar leis inconstitucionais, reconhecem a sindicabilidade dos actos que apliquem tais normas, actos esses que sendo ilegais devem ser anulados contenciosamente. Impõe-se, pois, concluir, que o acto objecto de recurso consubstancia um verdadeiro acto administrativo, lesivo dos direitos e interesses legítimos da Recorrente, sendo, como tal recorrível, pelo que o Acórdão recorrido enferma de erro de julgamento. E a via contenciosa para reagir contra tal acto é, seguramente, o recurso contencioso de anulação. Finalmente, a Recorrente goza de legitimidade activa, pois tem um interesse directo pessoal e legítimo no provimento do recurso A Autoridade recorrida contra alegou, concluindo: O despacho impugnado não consubstanciou uma decisão sobre um pedido de interpretação extensiva do regime estabelecido no Decreto-Lei n.º 130/2000 , de 13 de Julho, que aliás não foi expressamente formulado nem dirigido ao Sr. Secretário de Estado das Obras Públicas. Foi emitido no âmbito de uma relação de tutela e superintendência existente entre o membro do Governo que o subscreve e o Instituto de Estradas de Portugal. A resolução da questão suscitada perante este Instituto pela recorrente sempre teria que contemplar uma alteração legislativa, alargando o âmbito de comparticipações incluído naquele regime ou até, maxime , extinguindo-as totalmente. Do despacho impugnado não resulta directa e imediatamente qualquer lesão de direitos ou interesses da recorrente no caso concreto. Pelo que, ao decidir que o despacho recorrido não consubstancia um acto contenciosamente impugnável, o que conduz à conclusão de ilegalidade da interposição do recurso e fundamente a sua rejeição, o douto Acórdão sob recurso não incorreu em erro de julgamento. O Ex.mo Sr. Procurador Geral Adjunto, no seu douto parecer (fls. 174), pronunciou-se no sentido do não provimento do recurso. FUNDAMENTAÇÃO I. MATÉRIA DE FACTO. O Acórdão recorrido julgou provados os seguintes factos : O Governo, através do DL n.º 130/2000 , de 13/7, estabeleceu a comparticipação, pelo Governo português, dos custos das taxas de portagem aplicáveis a veículos de passageiros e de mercadorias das classes 3 e 4 de portagens que fossem utentes da via verde, comparticipação essa que se traduziu num desconto no pagamento das taxas de 50% entre as 0 e as 6 horas e entre as 22 e as 24 horas e de 30% entre as 10 e as 16 horas. Essa comparticipação apenas abrangeu as auto-estradas concessionadas à B.... A recorrente é concessionária das auto-estradas A8 e A15, que não beneficiavam dessa comparticipação. Com vista a que lhe fosse concedido esse benefício, a recorrente apresentou, ao Sr. SEOP, o Memorando de fls. 35-36 dos autos - que se dão por reproduzidas, tal como todas as outras que vierem a ser citadas - e ao Instituto de Estradas de Portugal, a exposição de fls. 31-33. Na sequência desta exposição, o IEP elaborou o ofício de fls 30, cujo teor se transcreve: “ Na sequência da exposição anexa, da A..., venho solicitar a V. Ex.ª informação quanto ao previsto relativamente à medida legislativa que comparticipa as portagens de veículos pesados na rede concessionada à B.... O problema apresentado por esta concessionária é recorrente, podendo estender-se à concessionária ... quando abrir este ano o sub-lanço Braga-Guimarães, o que já se verifica hoje entre a A1 e a A8 e entre a A9-CREL e a A15. Note-se que à data do referido Decreto-Lei a situação de concorrência não se colocava com esta acuidade, mas a conclusão da rede pela A... veio agravar essa discrepância. A situação acaba por se reflectir na relação ente o IEP e as concessionárias, uma vez que a sua função de regulação sai prejudicada, ao aceitar uma ajuda do Estado a apenas uma das concessionárias, agravada por esta ser a mais forte economicamente. Esta situação já foi objecto de conhecimento pelas autoridades comunitárias, por prefigurarem uma ajuda do Estado na rede nacional face aos outros Estados-Membros, e por ser dada apenas a uma concessionária. Assim, e muito embora se reconheça que a alteração legislativa não depende deste Instituto, é nossa convicção que a mesma deva terminar, até porque o transporte rodoviário nocturno em outros países como a Áustria é penalizado, dado os seus impactes negativos em termos de ruído na passagem junto a aglomerados populacionais ”. Este ofício foi enviado ao SEOP, que sobre ele exarou o seguinte despacho – acto recorrido – “ Não é intenção do Governo tornar extensiva a comparticipação criada através do DL n.º 130/2000 , de 13 de Julho ” – fls. 30. Esse despacho foi notificado pelo IEP à recorrida através do ofício de fls. 15. O DIREITO. O relato antecedente evidencia que a Recorrente dirigiu ao Sr. SEOP e ao Instituto das Estradas de Portugal (IEP) requerimentos alertando-os para o facto de, por força do disposto no DL 130/2000 , de 13/7, a B... gozar de um regime de excepção na exploração das auto estradas, que a discriminava positivamente em relação às restantes concessionárias, e solicitando que esse regime fosse alargado a todas elas de forma a que todas ficassem em situação de igualdade. O que motivou o envio, pelo IEP, ao SEOP do ofício que se transcreveu no ponto 5 da matéria de facto onde se reconhece que, de facto, o citado diploma atribuía à B... benefícios únicos na exploração da sua rede de auto estradas e que a alteração desta situação só poderia ser feita por via legislativa, pelo que perguntava se havia intenção de alterar a situação por essa via . Ao que o SEOP sobre ele exarou despacho recorrido que é do seguinte teor “ Não é intenção do Governo tornar extensiva a comparticipação criada através do DL n.º 130/2000 , de 13 de Julho ”. Inconformada a Recorrente interpôs recurso contencioso pedindo a sua anulação o qual foi rejeitado pelo Acórdão recorrido, com fundamento na sua manifesta ilegalidade, pois foi entendido que aquele despacho não configurava qualquer pronúncia definitiva e inovadora de não atribuição da comparticipação em causa e, porque assim, não se podia considerá-lo um acto administrativo lesivo dos seus direitos ou interesses legítimos. E justificou-se este entendimento da seguinte forma : “E é assim não obstante a recorrente não ter visto, de facto, satisfeita a sua pretensão de ver comparticipadas as auto-estradas a ela concessionadas, o que a levou a considerar indeferida essa pretensão, pois que esse “indeferimento” nunca pode ser dissociado da pretensão formulada e esta foi apenas a de alteração legislativa que contemplasse essa comparticipação. O que se apresenta, aliás, numa perspectiva correcta, na medida em que se a comparticipação foi estabelecida em diploma legal, a alteração do seu regime só através de outro diploma legal podia ser efectuada. O que o recorrido disse foi apenas que não era sua intenção alterar o regime estabelecido. Donde resulta que o recorrido, através do acto contenciosamente impugnado, apenas manifestou uma intenção - que podia vir a ser concretizada ou não - não tendo tomado a decisão que a recorrente considera que tomou, decisão essa que, aliás, in casu, e tendo em conta a pretensão a que se reportava, não podia tomar. O que significa que o acto contenciosamente impugnado não é um acto administrativo - uma decisão de um órgão da Administração que, ao abrigo de normas de direito público, visem produzir efeitos jurídicos numa situação individual e concreta ( art.º 120.º do CPA )- mas apenas, como foi referido, um acto da Administração em que esta manifestou a sua intenção quanto ao seu procedimento relativamente à alteração de uma norma legislativa que havia sido solicitada pela recorrente. Ou seja, não é um acto lesivo de direitos da recorrente, pelo que não é contenciosamente impugnável (art.º 268.º, n.º 4 da CRP). A lesão desses direitos, a ocorrer, decorre da lei, podendo a recorrente ser ressarcida no âmbito da responsabilidade civil eventualmente dela decorrente, ou, então, no âmbito do contrato de concessão celebrado entre ela e o IEP. Por outro lado, se, como a recorrente defende, uma interpretação do DL n.º 130/2000 conforme à Constituição lhe confere o direito à comparticipação pretendida, o que a recorrente tem é que lançar mão de uma acção para o reconhecimento desse direito, sendo certo que a pretensão que formulou não foi a de que, em face da lei vigente, a comparticipação nela estabelecida fosse aplicável às suas auto-estradas, mas sim que a lei fosse alterada de molde a considerar essa comparticipação. De salientar, finalmente, que, mesmo que se considere que a concessão da comparticipação estabelecida no referido diploma legal configura um acto administrativo, nem assim o acto contenciosamente impugnado seria um acto administrativo lesivo de direitos. Na verdade, nesta hipotética situação, que se equaciona apenas para apresentar um quadro melhor ilustrativo dessa situação, o que o acto da Administração significaria era somente que ela se recusava a alterá-lo, mantendo o acto anterior, que seria a fonte de lesão dos alegados direitos da recorrente. E isto porque, conforme já foi referido, o acto impugnado não recaiu sobre um expresso e concreto pedido de comparticipação em face do anteriormente estabelecido, mas sim sobre a alteração desse quadro anterior.” Vejamos, pois, se ao assim decidir decidiu bem. 1. O Governo “ na sequência do aumento do preço dos combustíveis e considerando a necessidade de adoptar medidas extraordinárias de salvaguarda do transporte de mercadorias, decidiu comparticipar, em determinados períodos do dia, o custo das portagens em toda a rede de auto-estradas concedida à B..., aplicáveis a veículos de passageiros e de mercadorias que integrem as classes 3 e 4 de portagem e que sejam utentes do serviço Via Verde ”, comparticipação essa que seria de carácter provisório e seria revista no momento em que o euro entrasse em circulação. - Vd. preâmbulo do DL 130/2000 , de 13/7. E nesse sentido decretou que as taxas de portagem pela utilização daquelas auto-estradas e classes de veículos “ entre as 0 e as 6 e entre as 22 e as 24 horas são pagas, em partes iguais pelo utilizadores e pelo Estado ” e que “ entre as 10 e as 16 horas serão pagas pelos utilizadores e pelo Estado, pagando aqueles 70% do seu preço e o Estado a parte restante ”, sendo que na parte restante do dia essa utilização seria paga exclusivamente pelos utilizadores. – n.ºs 1, 2 e 3 do art.º 2.º do citado diploma. A Recorrente sentindo-se injustiçada por aquele benefício ter sido, apenas e tão só, atribuído à B... dirigiu à Autoridade Recorrida e ao IEP os documentos aludidos no ponto 4 do probatório onde informava que as auto-estradas que lhe foram concessionadas (A8 e A15) estavam a sofrer um impacto directo muito negativo em resultado das referidas comparticipações - na medida em que sendo aquelas auto-estradas alternativas e concorrentes da A1 muito do seu potencial tráfego se desviava para esta via – e manifestava a opinião de que era vital e urgente alargar o âmbito daquelas comparticipações à totalidade das concessionárias. Solicitação foi desatendida porquanto a Entidade Recorrida, pelo despacho recorrido, informou que não tinha intenção de proceder à pretendida alteração do DL 130/2000 . Será que, como se decidiu, este despacho é recorrível ? 2. De acordo com o se prescreve no n.º do art.º 25.º da LPTA “só é admissível recurso dos actos administrativos definitivos e executórios” , entendido este conceito de harmonia com a nova redacção do art. 268.º da CRP (resultante da Lei Constitucional 1/89 ), o que vale por dizer que só são susceptíveis de recurso contencioso os actos administrativos lesivos dos direitos ou interesses legalmente protegidos dos seus destinatários ( Vd. neste sentido Cons. Santos Botelho in “Contencioso Administrativo”, 4.ª ed., pg. 292, e, entre outros, Acórdãos deste Supremo Tribunal de 20/11/91, rec. 12.696, de 23/10/91, rec. 12.561, e do Pleno de 13/4/00, rec. 45.398 .). Sendo que - por força do que se estatui no art.º 120.º do CPA - por acto administrativo se devem considerar "as decisões dos órgãos da Administração que ao abrigo de normas de direito público visem produzir efeitos jurídicos numa situação individual e concreta. " . Resulta, assim, claro que o recurso contencioso só pode utilizado quando estejam em causa decisões da Administração que se traduzam numa pronúncia definitiva e inovadora feita ao abrigo de normas de direito público, que afectem os direitos ou interesses legítimos do seu destinatário. E, sendo assim, os despachos que enunciem meras intenções ou que se traduzam em orientações para os serviços e que, portanto, por si só, e imediatamente, não sejam capazes de extravasar do âmbito interno da Administração e atingir, de forma lesiva, a situação dos interessados não são susceptíveis de ser objecto de recurso contencioso. Será que - como defende a Recorrente - o despacho recorrido pode ser qualificado como um acto administrativo lesivo ? Vejamos. 2. 1. Não há dúvida de que a Recorrente tem razão quando afirma que o despacho recorrido, ao declarar não ser intenção do Governo alargar às restantes concessionárias os benefícios concedidos à B... pelo DL 130/2000 está indeferir-lhe a pretensão que lhe dirigiu no sentido de ser colocada em idêntica situação àquela concessionária e, nessa medida deve ser configurado como um acto de indeferimento da sua pretensão e, portanto, um acto lesivo dos seus interesses imediatos. E a tal não obsta o facto daquele despacho ter sido proferido no rosto de um ofício enviado pelo IEP à Autoridade Recorrida onde aquela solicitava instruções de procedimento no tocante à pretensão da Recorrente e, portanto, e aparentemente, aparecer como uma mera instrução interna. Na verdade, apesar dessa aparência, o referido acto, ainda que imediatamente provocado por um ofício entre duas entidades da Administração, constituiu a resposta definitiva à pretensão da Recorrente e, por isso, e porque afectava seus interesses, é que a mesma foi notificada dessa decisão. Ou seja, o acto recorrido teve efeitos externos e constituiu um verdadeiro indeferimento da pretensão da Recorrente . A questão a colocar é , todavia, outra e traduz-se em saber se , por um lado, (1) esse despacho pode ser qualificado como uma verdadeira uma decisão administrativa, isto é, como um acto jurídico praticado no exercício de um poder administrativo ao abrigo de normas de direito público cujos efeitos se repercutiram na esfera jurídica da Recorrente, e, por outro, (2) se os interesses por ela atingiu podem ser configurados como interesses legalmente protegidos, isto é, como interesses cuja tutela pode ser feita através da interposição de recurso contencioso. Ora, a nosso ver, a resposta a dar a esta questão – em qualquer das vertentes em que a mesma foi decomposta – é negativa. 2. 2. Com efeito, sendo a Recorrente concessionária da concepção, projecto, construção e exploração de determinados lanços de auto estrada por força Contrato de Concessão celebrado com o Estado Português as condições dessa exploração são as aí clausuladas, pelo que será através da modificação daquele Contrato que estas condições poderão ser modificadas e será com fundamento no que nele se acordou que se dirimirão os conflitos eventualmente emergentes dessa relação. E, porque assim, não se nos afigura legítimo que a Recorrente, à margem desse clausulado e, porventura, contra o que aí se obrigou, procure, agora, forçar o outro Outorgante a alterar as condições de exploração anteriormente fixadas. Sendo assim, e sendo que a pretensão manifestada pela Recorrente nos requerimentos que dirigiu, tanto à Autoridade Recorrida como ao IEP, foi a de alteração de uma parte daquele clausulado e, portanto, a de ver modificados os pressupostos em que o Contrato se fundou, entendemos que tal a pretensão não representa um interesse legítimo susceptível de protecção jurídica. E isto porque, muito embora tal pretensão não seja ilegal e, nessa medida, susceptível de ser deferida sem violação de nenhum princípio fundamental da ordem jurídica, não pode ser retratada como um interesse legítimo , isto é, como um interesse com protecção semelhante a um direito subjectivo e, por isso, um interesse cuja defesa possa ser feita através da interposição de um recurso contencioso . 2. 3. Por outro lado, a decisão da Autoridade Recorrida , também, não pode ser vista como uma decisão autoritária definidora da situação da Recorrente, proferida ao abrigo de normas de direito público , pois que a sua recusa em deferir a pretensão que lhe foi colocada traduziu-se, tão só, no propósito de manter inalterados os pressupostos e o clausulado de um contrato livremente outorgado. O que significada que o despacho recorrido, ao proclamar que o Governo entendia desnecessária a alteração das condições em que a Recorrente explorava as suas auto estradas, não só não veio introduzir novidade naquele Contrato como também não se serviu do direito público como suporte da sua decisão. Ou seja, ao agir desta forma a Autoridade Recorrida não definiu, por si só, de forma autoritária, a situação jurídica da Recorrente e, nessa medida, o despacho recorrido não pode ser qualificado como um acto administrativo. A decisão da Autoridade Recorrida tem, assim, a mesma natureza que teria se a decisão da Recorrente se a situação a ponderar fosse a inversa, isto é, se a petição de alteração do Contrato partisse daquela Autoridade e a Recorrente se negasse a satisfazê-la. E daí que - como se afirma no douto Acórdão recorrido, ainda que por razões algo diferentes - o acto impugnado não seja recorrível e que a ressarcibilidade dos prejuízos eventualmente sofridos pela Recorrente pelo facto de a B... beneficiar de um regime mais favorável tenha de ser feita no âmbito da responsabilidade civil decorrente do contrato no âmbito do contrato de concessão celebrado entre ela e o IEP ou da lei. Termos em que acordam os Juizes que compõem este Tribunal em, por razões não inteiramente coincidentes, negar provimento ao recurso e em confirmar a douta decisão recorrida. Custas pela Recorrente, fixando-se a taxa de justiça em 460 euros e a procuradoria em metade. Lisboa, 16 de Junho de 2005. – Costa Reis – (relator) – António Samagaio – Azevedo Moreira – Rosendo José – Santos Botelho – Pais Borges – Angelina Domingues – António Madureira .