Fundamentação.
Como é sabido, é pelas conclusões do recorrente que se fixa e delimita o objecto ou o âmbito dos recursos (artigos 684º, nº 3 e 690º, nº 1 do CPCivil).
Significa isto que cumpre apenas averiguar da exigibilidade do título em que se funda a execução, por o Apelante não ter impugnado a parte da sentença que considerou não provada a alegada coação moral.
Remete-se para a matéria de facto fixada na sentença, nos termos do disposto no art.713º/6 do CPCivil.
Na execução a que foram deduzidos os presentes embargos, a Exequente apresentou como título executivo um documento manuscrito, com data de 02.08.2001, assinado pelo Embargante, do seguinte teor:
“Venho por este meio declarar que irei repor à Exmª Srª Drª Sara o valor de 1.100.000$00 (um milhão e cem mil escudos) sem encargos, referentes a comissões recebidas na minha actividade profissional dos últimos sete meses, conforme o acordo verbal.
O valor acima citado será reposto em multientregas e valor, consoante a disponibilidade da minha futura situação profissional.”
Dispõe o nº1 do art. 45º do CPCivil, que “toda a execução tem por base um título, pelo qual se determinam o fim e os limites da acção executiva.”
À execução podem servir de base os documentos particulares, assinados pelo devedor, que importem constituição ou reconhecimento de obrigações pecuniárias, cujo montante seja determinado ou determinável nos termos do art. 805º – art. 46º, alínea c).
Resulta, assim, que os documentos particulares para se configurarem como títulos executivos devem obedecer aos seguintes requisitos:
- a)Conterem a assinatura do devedor;
- b)Importarem a constituição ou reconhecimento de obrigações;
- c)As obrigações reportarem-se ao pagamento de quantia determinada ou determinável, por simples cálculo aritmético.
No caso em análise, é fora de dúvida que o documento particular dado à execução reúne estes três requisitos: está assinado pelo devedor e nele reconhece-se uma obrigação pecuniária determinada.
Mas para poder promover-se a execução, é necessário que a obrigação se torne certa e exigível, como estatui o art. 802º do CPCivil: “a execução principia pelas diligências, a requerer pelo exequente, destinadas a tornar a obrigação certa, exigível e líquida, se o não for em face do título”.
No caso, não há dúvida que a obrigação é certa e líquida. E será exigível?
A obrigação é exigível desde que se encontre vencida (Cons. Amâncio Ferreira, Curso de Processo de Execução, 9ª edição, pag. 114).
A prestação é exigível quando a obrigação se encontre vencida, ou seja o momento a partir do qual a prestação pode ser exigida (Antunes Varela, Das Obrigações, II, 7ª edição, pag. 40).
O princípio geral do nº1 do art. 777º do Cód. Civil é o de que o credor pode exigir o cumprimento a todo o tempo, assim como o devedor pode a todo o tempo exonerar-se da obrigação. É o princípio geral relativo às obrigações puras: aquelas que por falta de estipulação ou disposição em contrário, se vencem logo que o credor, mediante interpelação, exija o seu cumprimento ou o devedor pretenda realizar a prestação devida (A.Varela, obra citada, pag. 42).
Ora, o caso em análise não constitui uma obrigação pura.
É que se é certo ter o Embargante reconhecido dever à Embargada a importância de 1.100 contos, esclareceu que efectuaria o pagamento “em multientregas e valor consoante a disponibilidade da minha futura situação profissional”.
Esta declaração, que foi aceite pelo Embargado, constitui uma verdadeira cláusula “cum potuerit” - prevista no nº1 do art. 778º do Cód. Civil - pois se traduz na possibilidade concedida ao devedor de cumprir quando puder.
Dispõe com efeito, aquele preceito, que “se tiver sido estipulado que o devedor cumprirá quando puder, a prestação só é exigível tendo este a possibilidade de cumprir…”.
O Prof. Antunes Varela, obra citada, pag. 46, escreve a propósito:
“Para exigir o cumprimento, o credor terá de alegar e provar que o devedor dispõe de meios económicos bastantes para efectuar a prestação, sem que esta o deixe em situação precária ou difícil.”
Neste sentido os Acórdãos desta Relação de 20.04.89 e de 21.02.91, CJ ano XIV, tomo 2, pag. 143 e ano XVI, tomo1, pag. 158 e Ac. do STJ de 25.03.2003, CJ AcSTJ, I, pag. 137.
Vejamos agora o que se passou no caso dos autos.
No requerimento inicial, a Exequente limitou-se a alegar ter o “Executado desde já há algum tempo organizado a sua vida profissional, momento a partir do qual assumiu o pagamento” (art. 5º).
Na resposta à posição do Executado - que havia sido notificado nos termos e para os efeitos do nº2 do art. 804º do CPCivil - a Exequente veio alegar que Executado trabalha para a empresa “Anodil…SA”, na qual aufere mais de € 2.500,00 por mês e que é proprietário de bens, designadamente da casa onde habita.
Apesar deste complemento à petição, a Srª Juíza indeferiu liminarmente o requerimento executivo, por “o documento dado à execução titular uma obrigação inexigível” (despacho de fls. 22 a 24 dos autos de execução).
Este despacho foi revogado pelo douto acórdão deste Tribunal de 09 de Julho de 2003, fls. 58 a 60 dos autos de execução, que decidiu que “conjugando (o requerimento de aperfeiçoamento) com o requerimento inicial, considera-se que os autos possuem os elementos essenciais para que a presente execução seja recebida – em relação ao que foi indeferido naquele despacho de fls. 22-24, como é óbvio” e determinou o prosseguimento da execução.
Esta decisão apenas mandou seguir a execução, dela não resultando, ao contrário do que sustenta a Embargada, a exigibilidade da obrigação exequenda.
E o Executado podia opor-se á execução por embargos alegando a inexigibilidade da obrigação exequenda - art. 813º, alínea e) e 815º do CPC.
Na sentença julgaram-se os embargos improcedentes por se ter entendido não ter o Embargante provado, como lhe competia, a impossibilidade de pagar dívida.
Mas como se procurou demonstrar, a prova da exigibilidade da obrigação deve ser feita pelo exequente, em princípio como preliminar da execução, nos termos do nº 2 do art. 804º do CPC, ou então nos embargos, cabendo-lhe provar que o executado tem condições económicas para pagar a dívida – neste sentido Remédio Marques, in “Curso de Processo Executivo Comum, 2000, pag. 91.
Ora no requerimento inicial a Exequente apenas alegou ter o Executado, “desde já há algum tempo organizado a sua situação profissional, momento este a partir do qual assumiu o pagamento”. É certo que em resposta á oposição do Executado, veio dizer que este trabalha para a empresa “Anodil…SA” e que é proprietário da casa onde habita (fls. 19 a 21 da execução).
No entanto, apenas se provou que o Executado após ter assinado o documento dado à execução exerceu uma actividade remunerada, sem que se saiba qual o ordenado que auferia, mais se tendo provado que em Agosto de 2003 estava inscrito no Centro de Emprego.
De tudo o que antecede impõe-se concluir que não ter a Exequente provado, como lhe competia, que a obrigação assumida pelo Embargante é exigível.
E a inexigibilidade da obrigação constitui fundamento de oposição á execução – artigos 813º, alínea e) e 815º do CPCivil.
Procedem as conclusões do recurso.
Decisão.
Nestes termos, concede-se provimento à apelação, revoga-se a sentença, julgando-se os embargos procedentes.
Custas pela Embargada.
Lisboa, 28 de Junho de 2007
Ferreira Lopes
Manuel Gonçalves
Aguiar Pereira