Acordam no Supremo Tribunal de Justiça :
AA e marido BB, CC e mulher DD instauraram a presente acção de impugnação de justificação notarial contra EE e mulher FF, pedindo :
- a)Se considere impugnado, para todos os efeitos legais, o facto justificado na escritura de 14 de Fevereiro de 1996, referente à invocada aquisição pelos réus, por usucapião, do prédio que identificam no art. 1º da petição inicial ;
- b)– Se declare nula e de nenhum efeito essa mesma escritura de justificação notarial, por forma a que os réus não possam, através dela, registar quaisquer direitos sobre o prédio nela identificado e objecto da presente impugnação ;
- c)- Se ordene o cancelamento de quaisquer registos operados com base no documento aqui impugnado ;
- d)– Se declare que o prédio identificado no art. 1º da petição pertence à herança aberta e ilíquida de GG e mulher HH, avós do réu marido .
Para tanto, os autores alegaram, em síntese:
São falsas as declarações que os réus produziram na escritura de justificação, nomeadamente, quanto à data do falecimento do anterior proprietário do prédio a que a escritura respeita, bem como sobre a existência da invocada doação verbal do imóvel aos réus e que estes tenham entrado na sua posse na data que afirmam e o tenham adquirido por usucapião .
O prédio pertence à herança dos indicados GG e HH, de quem os autores são herdeiros, por serem seus filhos .
Os réus contestaram .
Por excepção, invocaram a caducidade do direito de acção e, por impugnação, contradisseram os factos invocados pelos autores.
Além disso, deduziram reconvenção, pedindo :
- a)– Sejam os réus declarados únicos donos e legítimos proprietários e possuidores do prédio identificado no art. 1º da petição inicial, objecto da justificação notarial, por o terem adquirido por usucapião .
- b)- Subsidiariamente, seja reconhecido o direito de propriedade dos réus sobre o mesmo prédio, por via da aplicação do instituto da acessão industrial imobiliária .
Houve réplica dos autores .
No despacho saneador, foi deliberado :
1- Admitir a reconvenção, com base no disposto na al. c), do nº2, do art. 274, do C.P.C., com a argumentação de que, independentemente da natureza jurídica da acção de impugnação de justificação notarial, em geral considerada como acção de apreciação negativa, e da questão do ónus da prova dos factos incluídos na escritura de justificação, o certo é que toda a controvérsia respeita ao direito invocado pelo justificante, que aqui é o direito de propriedade sobre o prédio rústico, tendo os autores formulado também o pedido de declaração de que esse direito pertence à herança em que são interessados .
2- Julgar improcedente a excepção da caducidade da acção .
Realizado o julgamento e apurados os factos, foi proferida sentença, que decidiu :
1Julgar a acção improcedente e absolver os réus dos pedidos .
2- Julgar procedente o pedido reconvencional principal e, consequentemente, declarar os réus únicos e legítimos proprietários e possuidores do prédio objecto da justificação notarial de 14-2-96, identificado no art. 1º da petição inicial .
Apelaram os autores, com êxito, pois a Relação de Guimarães, através do seu Acórdão de 6-3-07, sentenciou nos seguintes termos ( fls 410):
“ 1- Julga-se procedente a apelação.
3- Revoga-se a sentença, atendendo-se ao peticionado pelos recorrentes”.
Agora, são os réus que pedem revista, produzindo alegações, onde resumidamente concluem :
1- Era aos autores que incumbia, diversamente do decidido, alegar e provar factos susceptíveis de ilidir a presunção do art. 7º do Cód. Reg. Predial de que os réus beneficiavam, oriunda do facto de terem efectuado o registo do seu direito, com base na escritura de justificação notarial, o que os autores não lograram fazer, pelo que o Acórdão recorrido deve ser revogado e substituído por outro de sentido diverso.
2 – Da matéria de facto dada como provada resulta que a posse dos réus reveste os seus elementos constitutivos ( corpus e animus) e que se iniciou, pelo menos, há mais de 15 anos desde a propositura da acção, pelo que deverá ser atendida a aquisição do direito de propriedade pelos réus, através da usucapião .
3 – A acção em causa é uma acção de simples apreciação negativa, mas os autores também peticionam que seja declarado que o prédio pertence à herança ilíquida e indivisa aberta por óbito dos indicados GG e mulher HH, pelo que, face às regras do ónus da prova, pelo menos este pedido de apreciação positiva deve ser julgado improcedente .
4 – No Acórdão recorrido existe manifesta contradição entre a fundamentação e a parte decisória, por não ser reconhecido aos réus o direito inerente à presunção derivada do registo predial e por ser reconhecido o direito de propriedade da mencionada herança sobre o mesmo imóvel .
5 - Consideram violados os arts 7º do C. Reg. Predial, 4º do C.P.C. e 342º, 343º, 1252º, nº2, 1296º e 1253º, al. b), do C.C.
Os autores contra-alegaram em defesa do julgado .
Por iniciativa do anterior Ex.mo Conselheiro Relator, veio a ser determinado pelo Ex.mo Sr. Presidente deste Supremo Tribunal de Justiça que a revista fosse julgada de forma ampliada, com vista à uniformização de jurisprudência, nos termos dos arts. 732-A e 732-B do C.P.C.
Foi emitido parecer pelo Ex-mo Procurador Geral Adjunto junto deste Supremo Tribunal, no qual foi defendida a concessão da revista pedida, com uniformização da jurisprudência no sentido seguinte .
“ Na acção de impugnação de facto justificado notarialmente e inscrito definitivamente no registo, incumbe ao autor ilidir, mediante prova em contrário, a presunção de que o direito existe e pertence ao titular inscrito, nos precisos termos em que o registo o define, face às disposições conjugadas dos arts 7º, 8º, 10º e 116º, nº1, do Cód. Reg. Predial, 344º, nº1 e 350º do Cód. Civil”.
Corridos os vistos, cumpre decidir.
A Relação considerou provados os factos seguintes :
1- Em 14-2-96, no Cartório Notarial de Vila Nova de Cerveira, os réus EE e mulher outorgaram a escritura de justificação notarial, cuja fotocópia constitui documento de fls 10 e segs, para efeito de registo de aquisição, por usucapião, do prédio rústico, composto por terreno de cultivo, denominado Calves, sito no lugar de Crastos, da freguesia de S. Pedro da Torre, da concelho de Valença, inscrito na matriz sob o art. 4776, na qual intervieram como “primeiros outorgantes” os ora réus e como “segundos outorgantes” II, JJ e LL, donde consta o seguinte :
“ Pelos primeiros outorgantes foi dito que são donos e legítimos possuidores, com exclusão de outrem, do prédio rústico composto por terreno de cultivo, denominado de Calves, com a área de 2.600m2, sito na lugar de Crastos, freguesia de S. Pedro da Torre, inscrito na matriz sob o art. 4776 ....
Que o identificado prédio foi adquirido por doação feita pelo avô do justificante marido, GG, entretanto já falecido, no ano de 1974, sem que no entanto ficassem a dispor de título formal que lhes permita o respectivo registo na Conservatória do Registo Predial; mas desde logo entraram na posse e fruição do prédio, em nome próprio, posse que assim detém há muito mais de vinte anos, sem interrupção ou ocultação de quem quer que seja .
Que essa posse foi adquirida sem violência e mantida sem oposição, ostensivamente, com conhecimento de toda a gente e com aproveitamento de todas as utilidades do prédio, agindo sempre por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade, quer usufruindo como tal o imóvel, quer suportando os respectivos encargos .
Que esta posse em nome próprio, pacífica, contínua e pública, conduziu à aquisição do imóvel, por usucapião, que invocam, justificando o direito de propriedade, para o efeito de registo, dado que esta forma de aquisição não pode ser comprovada por qualquer outro título formal extrajudicial .
Pelos segundos outorgantes foi dito que confirmam as declarações que antecedem, por corresponderem inteiramente à verdade “ .
2O extracto dessa escritura foi publicada no Jornal “ Notícias de Valença “, de 10-3-96 .
3 – A aquisição do referido prédio, por usucapião, foi inscrita no registo predial, a favor dos réus, em 23-5-96.
4 – GG, avô do réu, faleceu em 7-6-82, no estado de casado com HH, que veio a falecer em 1-4-89 .
5 – Os autores AA e CC são filhos dos falecidos GG e HH .
6 – O prédio referido no anterior nº1 pertenceu ao casal dos referidos GG e HH .
7 – No inventário nº 279/99, instaurado no Tribunal Judicial de Valença, para partilha das heranças dos mencionados GG e HH, em que foi cabeça de casal MM ( filha daqueles e mãe do réu), não foi relacionado o prédio, mencionado no nº1 ; não houve reclamação contra a relação de bens ; os bens foram adjudicados, por acordo, em conferência de interessados de 28-2-02 ; os autores não estiveram presentes, mas estiveram representados, nessa conferência .
8 - A partilha, nesse inventário, foi homologada por sentença de 24-5-02, transitada em julgado .
9 – No processo de imposto sucessório por óbito do indicado GG, foi apresentada a relação de bens de fls 20 a 30, onde o prédio em questão foi incluído sob a verba nº 25 .
10 – Pelo menos a partir de 1983, o réu e, depois, ele e sua mulher, passaram a cultivar e a colher os frutos do prédio, de forma ininterrupta, à vista de toda a gente e sem oposição de ninguém .
11 – Pelo menos a partir de 1983, os réus iniciaram a construção da casa de habitação no terreno do questionado prédio, tendo essa construção se prolongado por vários anos .
12 – A parte do prédio que não se encontra fisicamente ocupada pela casa é utilizada acessoriamente a esta, nomeadamente, sendo utilizado parte para cultivo de horta, fruteiras e vinha e parte para jardim .
13 – A referida casa e terreno formam uma unidade económica, limitada e vedada, e a separação deles depreciaria quer a casa, quer o logradouro.
14 – O valor da casa de habitação é de 132.480 euros e o valor do terreno referido no nº1 é de 34.036 euros .
15 – Os autores residem no Brasil e no Canadá e vêm a Portugal por períodos muito curtos de tempo .
16 – A construção ocupada pelos réus, considerando a habitação e o anexo, ocupa a área de 153,96 m2.
17 – É de 880 m2 a área do logradouro, considerando como tal a área circundante ao edifício e que se encontra pavimentada, ou ajardinada, ou destinada ao depósito de lenhas, paletes e outros objectos, bem como à circulação e onde se encontra implantada uma construção amovível, em chapa ondulada .
18- A presente acção foi proposta em 6-9-02, conforme carimbo aposto na petição inicial .
Vejamos agora o mérito do recurso .
1.
Sustentam os recorrentes que tendo efectuado o registo do questionado prédio, com base numa escritura de justificação notarial de aquisição do respectivo direito de propriedade, por usucapião, beneficiam da presunção de titularidade do direito prevista no art. 7º do Cód. Reg. Predial .
Esta é uma questão jurídica controvertida, que a primeira instância decidiu no sentido favorável aos réus, ora recorrentes, mas que a Relação de Guimarães resolveu em sentido contrário, fazendo proceder a pretensão dos autores em desfavor dos réus, que têm o prédio registado a seu favor .
A jurisprudência deste Supremo Tribunal de Justiça sobre esta questão de direito tem-se mostrado dividida .
No sentido defendido pelos recorrentes, pronunciaram-se, entre outros, os Acórdãos deste S.T.J. de 19-3-02, proc. 02A197; de 5-11-02, proc. 02A900; de 3-7-03, proc. 03B2066 ; de 29-6-05, proc. 05B2072 ; de 22-11-05, proc. 2485/ o5 ; de 11-7-06, proc. 06A2105 ; de 11-1-07, proc. 4316/06 ; de 8-2-07, proc. 2586/06 e de 15-5-07, proc. 07A1273.
Em sentido contrário, decidiram também, entre outros, os Acórdãos de 3-3-98, proc. 914/97 ; de 11-4-00, proc. 00A248; de 24-6-04, proc. 03B3843; de 25-10-05, proc. 05A2709; de 21-2-06, proc. 06A073; de 14-11-06, proc. 06A3486.
Daí a necessidade de uniformização da jurisprudência .
2 .
No caso dos autos, trata-se de uma escritura de justificação notarial para estabelecimento de trato sucessivo no registo predial, prevista no art. 116º, nº1, do Cód. Reg. Predial e nos arts 89º, 96º, nº1 e 101º do Cód. do Notariado, que dispõem o seguinte :
Art. 116º, nº1, do C.R.P. :
“O adquirente que não disponha de documento para prova do seu direito pode obter a primeira inscrição mediante escritura de justificação notarial ou decisão proferida no âmbito do processo de justificação previsto neste capítulo”.
Art. 89º do Cód. do Not.
“1- A justificação para efeitos do nº1 do art. 116º do Código do Registo Predial consiste na declaração, feita pelo interessado, em que este se afirme, com exclusão de outrem, titular do direito que se arroga, especificando a causa da sua aquisição e referindo as razões que o impossibilitam de a comprovar pelos meios normais .
2 – Quando for alegada a usucapião, baseada em posse não titulada, devem mencionar-se expressamente as circunstâncias de facto que determinam o início da posse, bem como as que consubstanciam e caracterizam a posse geradora da usucapião “.
Art. 96º, nº1, do Cód. do Not.
“As declarações prestadas pelo justificante são confirmadas por três declarantes” .
Art. 101º do Cód. do Not.
“1- Se algum interessado impugnar em juízo o facto justificado deve requerer simultaneamente ao tribunal a imediata comunicação ao notário da pendência da acção .
2- Só podem ser passadas certidões de escritura de justificação decorridos 30 dias sobre a data em que o extracto for publicado, se dentro desse prazo não for recebida comunicação de pendência da impugnação .
3O disposto no número anterior não prejudica a passagem de certidão para efeito de impugnação .
4 – Em caso de impugnação, as certidões só podem ser passadas depois de averbada a decisão definitiva da acção .
5...”
Tanto basta para se evidenciar que a justificação notarial é um expediente técnico simplificado, um processo anormal de titulação ( preâmbulo do dec-lei nº 40.603, de 18-5-56), processo esse que todavia foi sucessivamente ampliado desde o advento do registo predial obrigatório, iniciado com a justificação extrajudicial de direitos prevista na Lei nº 2049, de 6 de Agosto de 1951.
A evolução legislativa foi caracterizada pelo reforço da tutela da fé pública registral, assente no princípio da legitimação de direitos sobre imóveis titulados judicial ou extrajudicialmente.
Como escreve Borges Araújo ( C/ colaboração de Albino Matos – Prática Notarial, 4ª ed. pág. 339) “ na génese do sistema em que assenta a justificação notarial está o principio do trato sucessivo .
Partindo da ideia de que, respeitando este princípio, se poderia criar um documento que substituísse, para efeitos de registo, títulos faltosos, criou-se um sistema em que nos aparece a nova escritura, de natureza excepcional, para apoiar e servir as necessidades do registo obrigatório, que se pretendia estabelecer.
O novo título foi buscar ao princípio do trato sucessivo a sua razão de ser, servindo não só o registo obrigatório como o registo predial em geral, ao possibilitar registos que de outro modo seriam impossíveis “ .
Mas a escritura de justificação notarial não oferece cabais garantias de segurança e de correspondência com a realidade, potenciando, mesmo, a sua utilização fraudulenta e permitindo que o justificante dela se sirva para titular direitos que não possui, com lesão de direitos de terceiros.
Efectivamente, trata-se de uma forma especial de titular direitos sobre imóveis, para efeito de descrição na Conservatória do Registo Predial, baseada em declarações dos próprios interessados, embora confirmadas por três declarantes , em que a fraude é possível e simples de executar.
A justificação notarial não constitui acto translativo, pressupondo sempre, no caso de invocação de usucapião, uma sequência de actos a ela conducentes, que podem ser impugnados, antes ou depois de ser efectuado o registo, com base naquela escritura .
É que a usucapião constitui o fundamento primário dos direitos reais na nossa ordem jurídica, não podendo esquecer-se que a base de toda a nossa ordem imobiliária não está no registo, mas na usucapião ( Oliveira Ascensão, Efeitos Substantivos do Registo Predial na Ordem Jurídica Portuguesa, ROA, Ano 34, pág. 43/46) .
E o art. 101º, nº1, do Cód. do Notariado, não fixa qualquer prazo para propositura da acção de impugnação do facto justificado .
O facto comprovado pelo registo da escritura de justificação é impugnável, nos termos gerais do art. 8º, nº1, do Cód. Reg. Predial, pelo que deve ser pedido o cancelamento do registo com a impugnação do facto justificado .
3.
Tem sido entendido, pela jurisprudência deste Supremo Tribunal, que a acção de impugnação de escritura de justificação notarial, prevista no art. 116, nº1, do Cód. Reg. Predial, na sua pureza, se apresenta como uma acção de simples apreciação negativa - art. 4º, nº2, al. a), do C.P.C.
Nas acções de simples apreciação ou declaração negativa, incumbe ao réu a prova dos factos constitutivos do direito que se arroga – art. 343º, nº1, do C.C.
No caso concreto, não se trata de uma pura acção de simples apreciação negativa, pois os autores, para além de formularem, nas alíneas a), b) e c) da parte conclusiva do petitório, pedidos declarativos de apreciação negativa, cuja prova incumbe aos réus (art. 343º, nº1), deduzem também, na alínea d), um pedido declarativo de apreciação positiva, ou seja, que se declare que o ajuizado prédio pertence à herança ilíquida e indivisa aberta por óbito de GG e mulher HH, cuja prova já pertence aos autores (art. 342º, nº1) .
Atentando, aqui e agora, apenas nos pedidos declarativos de apreciação negativa, dir-se-á que os réus, na escritura de justificação notarial, se dizem donos do prédio lá identificado, justificando a sua aquisição por usucapião .
Já vimos que, sendo os réus quem afirmam a existência desse direito, lhes cabe a prova dos respectivos factos constitutivos .
Mas, nessa situação, os réus não podem beneficiar da presunção derivada do registo do prédio a que procederam a seu favor, na Conservatória, nos termos do art. 7º do Cód. Reg. Predial, segundo a qual o registo definitivo constitui presunção de que o direito existe e pertence ao titular inscrito, nos precisos termos em que o registo o define.
É que o registo foi feito exactamente com base na escritura de justificação, agora impugnada .
A impugnação da escritura de justificação significa a impugnação dos factos com base nos quais foi celebrado o registo .
A impugnação desses factos, traduzida na alegação da sua não verificação ou da sua não correspondência com a realidade, não pode deixar de abalar a credibilidade do registo e a sua eficácia prevista no art. 7º do Cód. Reg. Predial, que é precisamente a presunção de que existe um direito cuja existência é posta em causa através da presente acção .
Daí que, impugnada a escritura com base na qual foi lavrado o registo, por impugnado também se tem de haver esse mesmo registo, não podendo valer contra o impugnante a referida presunção, que a lei concede no pressuposto da existência do direito registado .
A escritura de justificação notarial, com as declarações que nela foram exaradas, apenas vale para efeito de descrição do prédio na Conservatória do Registo Predial, se não vier a ser impugnada – art. 101º do Cód. do Notariado .
Como o registo foi feito com base em tal escritura de justificação, aqui impugnada, e precisamente porque o foi, não pode ele constituir qualquer presunção de que o direito existe, já que é este mesmo direito cuja existência se pretende apurar nesta acção .
O princípio da boa fé registral não pode, só por si, justificar a solução oposta, sobretudo porque a escritura de justificação é um meio de suprir a falta de um título para registo .
Acresce que, não estando a acção sujeita a qualquer prazo de caducidade (Ac. S.T.J. de 15-6-94, Col. Ac. S.T.J., II, 2º, 140), é totalmente indiferente que já tenha ou não sido lavrado o registo com base na escritura de justificação .
Se o registo já se encontrar lavrado ( como é o caso) , o autor impugnante apenas terá de pedir o seu cancelamento – art. 8º, nº1, do C. Reg. Predial .
O que tudo permite concluir, como se conclui, que o direito de propriedade afirmado na escritura de justificação notarial e, com base nela, levado ao registo, passou a ser incerto com a impugnação apresentada, daí decorrendo que os réus não possam beneficiar da aludida presunção do art. 7º do Cód. Reg. Predial .
4.
Afastado que os réus se possam prevalecer da eficácia da presunção legal do registo, importa agora apreciar se lograram fazer prova da aquisição do questionado prédio, através da usucapião, nos termos do art. 1287º do C.C. .
A verificação da usucapião depende de dois elementos : a posse e o decurso de certo período de tempo, variável conforme a natureza móvel ou imóvel da coisa .
Para conduzir à usucapião, a posse tem sempre de revestir duas características: ser pública e pacífica .
Os restantes caracteres ( boa ou má fé, titulada ou não) influem apenas no prazo.
Por sua vez, a posse é o poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real – art. 1251º.
Necessita de dois elementos : o corpus e o animus .
É que o nosso legislador não aceitou a concepção objectiva da posse, consagrada em alguns códigos estrangeiros, segundo a qual a posse sobre uma coisa se adquire pela mera obtenção do poder de facto .
Segundo a nossa lei, é necessário algo mais, ou seja, é preciso que haja, da parte do detentor, a intenção ( animus ) de exercer, como seu titular, um direito real sobre a coisa, e não um mero poder de facto sobre ela .
Pois bem .
Está admitido, por acordo das partes, que o questionado prédio rústico pertenceu ao casal dos falecidos GG e mulher HH, integrando o respectivo património ( alínea F) da peça dos factos assentes ) .
A invocada posse dos réus sobre o mesmo prédio não é titulada, por estes não terem logrado provar a pretensa doação, nem qualquer outro modo legítimo de adquirir – art. 1259º do C.C.
Como não há registo do título, nem da mera posse, a usucapião só pode dar-se no termo de quinze anos, se a posse for de boa fé, e de vinte anos, se for de má fé – art. 1296º do mesmo diploma.
No caso concreto, os pretensos actos de posse só se iniciaram a partir do ano de 1983.
Até à data da propositura desta acção, em 6-9-02, decorreram apenas dezanove anos, oito meses e cinco dias, sendo certo que os réus foram citados em 19-9-02, por cartas registadas com aviso de recepção ( fls 50 e 51), pelo que a interrupção do prazo da usucapião operou no termo do quinto dia após a data da entrada em juízo da acção, ou seja, quando apenas tinham decorrido dezanove anos, oito meses e dez dias – arts. 323º, nºs 1 e 2 e 1292º, do C. C.
Provou-se o corpus da posse, por se ter apurado que, pelo menos partir de 1983, primeiro, o réu e, depois, ele e sua mulher, passaram a cultivar e a colher os frutos do prédio, de forma ininterrupta, à vista de toda a gente e sem oposição de ninguém, e ainda que, também pelo menos a partir de 1983, os réus iniciaram a construção de uma casa de habitação no terreno do questionado prédio, que se prolongou por vários anos .
Embora não tivesse resultado provado que os réus praticassem tais actos com ânimo de exercerem o direito de propriedade sobre o mesmo prédio, como tinham invocado (resposta restritiva ao quesito 9º da base instrutória), sempre se poderá afirmar que subsiste uma situação de dúvida, por também não se ter apurado que tenham agido como simples detentores (Anotação do Prof. Henrique Mesquita ao Acordão do S.T.J. de 9-1-97, R.L.J. Ano 132 - pág. 23 e segs) .
Assim, é de presumir que os réus agiram como verdadeiros possuidores, nos termos do art. 1252º, nº2, do C.C., pois, em caso de dúvida, presume-se a posse naquele que exerce o poder de facto .
Mas não se provou a boa fé dos réus ( art. 1260º, nº1), por não terem demonstrado que só tivessem procedido à construção da casa naquele terreno, por estarem convencidos que actuavam legitimamente, como tinham alegado (resposta negativa ao quesito 16º) .
E, como a posse é não titulada, também se presume de má fé – art. 1260º, nº2.
O que tudo significa que, não estando demonstrada a boa fé, era necessário que a posse perdurasse pelo prazo de 20 anos para que os réus pudessem adquirir o prédio, por usucapião, prazo esse que, já vimos, não ter decorrido.
Em face do exposto, os réus não podem ter adquirido, por usucapião, o questionado prédio, identificado na escritura de justificação notarial, como invocam .
5.
Tanto basta para conduzir à procedência dos anteriores pedidos dos autores, atrás identificados sob as alíneas a), b) e c) , face á regra do ónus da prova prevista no citado art. 343º, nº1, do C.C.
Apenas com uma ressalva .
O autor pede se declare nula a escritura de justificação notarial de 14 de Fevereiro de 1996, com fundamento na falsidade das afirmações justificatórias constantes da mesma escritura.
Ora, a falsidade das afirmações dos outorgantes não figura entre as causas típicas de nulidade dos actos notariais, previstas nos arts 70º e 71º do Código do Notariado .
Do que se trata é antes da ineficácia de tal escritura, declarando-se que não produz efeitos, por os réus não terem adquirido o prédio por usucapião .
Tratando-se de erro na qualificação jurídica do efeito pretendido, que é a ineficácia do acto em vez da sua nulidade, o tribunal deve corrigir, oficiosamente, tal erro, e declarar tal ineficácia da escritura de justificação notarial, como permitido pelo art. 664º do C.P.C. ( Acordão uniformizador de jurisprudência nº 3/01, de 23-1-01, publicado no Diário da República, 1ª Série A, de 9-2-01) .
6.
Resta analisar o pedido declarativo de apreciação positiva, deduzido sob alínea d), através do qual os autores pretendem que se declare que o prédio identificado no art. 1º da petição inicial pertence à herança ilíquida e indivisa aberta por óbito de GG e mulher HH .
Tal prédio vem aí identificado do seguinte modo :
“ Prédio rústico composto por terreno de cultivo, denominado Calves, com a área de 2.600 m2, sito no lugar de Crastos, freguesia de S. Pedro da Torre, do concelho de Valença, a confrontar do norte com ...., do sul com estrada camarária, do nascente com ... e do poente com ....., não descrito na Conservatória do Registo Predial, mas inscrito na respectiva matriz, em nome do justificante marido, sob o 4776, com o valor patrimonial de 3.140$00, a que atribuem o valor de oitocentos mil escudos “ .
Já vimos que incumbe aos autores o ónus da prova deste pedido.
Ora, está provada a pertinência do referido prédio ao património dos falecidos GG e mulher ( pais e sogros dos autores e avós do réu ) e ainda que os autores são herdeiros daqueles, factos constitutivos do direito dos mesmos autores .
Facto extintivo do direito dos autores e constitutivo do direito dos réus seria a válida transmissão desse direito de propriedade sobre o aludido prédio ou a aquisição dele por usucapião .
Os réus não fizeram prova de qualquer negócio translativo válido, nem tão pouco da aquisição do prédio, por usucapião .
Com a morte do GG e mulher HH abriu-se a respectiva sucessão, que é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações jurídicas patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam – art. 2024º do C.C.
Enquanto não é feita a partilha, os bens integram a herança indivisa - art. 2101º.
Como ficou provado que o prédio foi incluído na relação de bens apresentada no processo de imposto sucessório por óbito do indicado GG e que o mesmo imóvel pertenceu ao património do referido casal do GG e mulher, por morte destes titulares do direito de propriedade, a respectiva posse continuou nos seus sucessores ( entre os quais se contam os autores ) desde o momento da morte, independentemente da apreensão material da coisa, nos termos do art. 1255º, nº1.
Tal como observam Pires de Lima e Antunes Varela, em anotação ao referido preceito ( Cód. Civil Anotado, Vol. III, 2º ed., pág. 13) , “ continuando a posse do de cujus no sucessor, há que admitir, como consequência necessária, que o sucessor não precisa de praticar qualquer acto material de apreensão ou de utilização da coisa, como expressamente se declara neste artigo e se repete na parte final do nº1, do art. 2050º, para ser havido para todos os efeitos legais, como possuidor ; ele pode inclusivamente ignorar a existência da posse . Em segundo lugar, a posse não é nova . A posse continua a ser a antiga com todos os seus caracteres ...” .
Essa posse também faz presumir o direito de propriedade na mencionada herança – art. 1268º, nº1.
E, por gozar dessa presunção legal, está até dispensada a prova do facto a que ela conduz – art. 350º, nº1.
De resto, está aceite, pelos próprios réus, a pertinência do prédio ao património do casal dos falecidos GG e mulher, o que afasta qualquer presunção de titularidade do direito de propriedade, a favor dos mesmos réus, com base na sua posse, desde 1983.
Vem pedido que se declare que o prédio do artigo 1º da petição pertence à herança aberta e ilíquida do GG e mulher .
No entanto, verifica-se que, actualmente, já se procedeu á partilha por óbito dos indicados GG e mulher, mas que não foi incluído nessa partilha o questionado prédio do art. 1º da petição inicial .
Ora, a omissão desse bem da herança não determina a nulidade da partilha efectuada, mas apenas a partilha adicional dos bens omitidos – art. 2122º do C.C.
Havendo um prédio omitido, como é o caso, a todo o tempo qualquer dos herdeiros pode requerer a respectiva partilha adicional, dada a imprescritibilidade do direito de sair da comunhão hereditária, nos termos do art. 2101º.
Daí que o pedido em análise só possa proceder quanto à declaração de que o prédio identificado no art. 1º da petição inicial, ainda por partilhar, pertence á citada herança .
7.
Em face do exposto, decidem :