Acordam os Juízes da Secção Social do Tribunal da Relação de Évora:
No Juízo do Trabalho de Faro, foi efectuada participação de acidente de trabalho sofrido em 28.12.2017 por AA, quando exercia as funções de motorista de pesados sob as ordens e direcção de SulReboques, Lda., cuja responsabilidade se encontrava transferida para Mapfre Seguros de Vida, S.A..
Na tentativa de conciliação, houve acordo quanto à existência e caracterização do acidente, o nexo de causalidade e a retribuição auferida.
A discordância ocorreu quanto à incapacidade atribuída, tendo o sinistrado requerido a realização de junta médica e oferecido os seus quesitos.
Os peritos médicos responderam aos quesitos pelo seguinte modo:
1.º Quais as sequelas do acidente dos autos sofridas pelo sinistrado?
R.: As sequelas são amputação da coxa esquerda e lesão do nervo ciático propileu externo direito.
2.º Sofreu amputação pelo terço médio ou inferior da coxa esquerda?
R.: Verifica-se amputação pelo terço médio da coxa esquerda.
3.º Qual o grau de incapacidade permanente daquela amputação, segundo a tabela de incapacidades?
R.: O grau de incapacidade é 60%
4.º Sofreu deformação pós traumática na perna, tornozelo ou pé direitos?
R.: Sim.
5.º Aquela lesão é ainda susceptível de determinar a sujeição a nova cirurgia de correcção ou estabilização?
R.: Não.
6.º Qual o grau de incapacidade permanente daquela lesão, segundo a tabela de incapacidades?
R.: O grau de incapacidade é entre 10 e 30%, propondo-se 15%.
7.º Sofreu lesão do nervo ciático poplíteo externo?
R.: Sim.
8.º Qual o grau de incapacidade permanente daquela lesão, segundo a tabela de incapacidades?
R.: Referido em 6, conjuntamente com esta.
9.º Sofreu perda de dentes? Quantos?
R.: Traumatismo facial sem sequelas valorizáveis.
10.º Qual o grau de incapacidade permanente da perda de dentes, segundo a tabela de incapacidades?
R.: Prejudicado.
11.º Não obstante a amputação da perna esquerda, o sinistrado carece de ortóteses ou próteses que permitam o equilíbrio vertical e a locomoção autónoma?
R.: Na presenta data não.
12.º Qual o tipo de próteses ou ortóteses adequado, atenta a idade e natureza do sinistrado, para assegurar o equilíbrio e a locomoção segura?
R.: Prejudicado.
13.º A falta de prótese ou ortótese, desde a data do sinistro, forçou o sinistrado a permanecer acamado e a andar de cadeira de rodas?
R.: Não.
14.º O sinistrado foi sujeito a colecistectomia, provocada por cálculos biliares?
R.: Se sim, não relacionado com o evento.
15.º Tal colecistectomia é atribuível à amputação e à falta de prótese ou ortótese, por ter o sinistrado permanecido imobilizado desde a data do acidente?
R.: Prejudicado.
16.º Qual o grau de incapacidade permanente resultante da perda da vesicula biliar?
R.: 0%.
17.º Sofre de perturbações psicológicas (nervosismo exacerbado, insónias, descontrolo emocional, estando sujeito a medicação) como consequência do sinistro?
R.: Desvalorizadas conjuntamente com as sequelas de foro ortopédico e neurológico.
Os mesmos peritos, fixaram a incapacidade do sinistrado de acordo com o seguinte quadro:
| Rúbrica da TNI | Coeficientes da tabela | Coeficientes arbitrados | Capacidade restante | Desvalorização arbitrada |
|---|
| I – 11.2.4 b) | 0,60 | 0,60 | 1 | 0,60 |
| III – 6.2.3 | 0,10-0,30 | 0,15 | 0,40 | 0,06 |
| INCAPACIDADE GLOBAL: 66% com IPATH |
Na sentença, foi decidido atribuir ao sinistrado uma incapacidade de 66% com IPATH, condenando-se a Ré a pagar a pensão anual e vitalícia no valor de € 9.770,53, a quantia de € 5.441,42 a título de subsídio de elevada incapacidade permanente e o montante de € 2.444,11 a título de diferença de indemnização por incapacidades temporárias, quantias estas acrescidas de juros de mora, à taxa legal, desde 21.12.2018 e até efectivo e integral pagamento.
Inconformado, o sinistrado recorre, colocando as seguintes questões:
1.ª O sinistrado não é reconvertível ao seu posto de trabalho, pelo que tem direito à bonificação do factor 1.5 vertido na al. a) do n.º 5 das Instruções Gerais da Tabela Nacional de Incapacidades.
2.ª A atribuição de IPATH é caso típico e evidente de não reconvertibilidade no posto de trabalho.
3.ª A cumulação dos benefícios da atribuição da IPATH com o factor 1.5 não ofende qualquer norma legal, nem constitucional, antes pretende mitigar o esforço que o sinistrado terá de efectuar na adaptação a um novo posto de trabalho.
A Seguradora não respondeu.
A Digna Magistrada do Ministério Público junto desta Relação prestou parecer nos autos, propondo o provimento do recurso.
Dispensados os vistos, cumpre-nos decidir.
A matéria de facto apurada na sentença recorrida – e não impugnada – é a seguinte:
- A)No dia 28 de Dezembro de 2017, AA foi vítima de um acidente de trabalho, quando se encontrava ao serviço da entidade empregadora SulReboques, Lda. com sede em Ferreiras.
- B)Auferia a retribuição anual de € 671,01 x 14 meses acrescido de 99,44€ x 11 meses relativo a subsídio de alimentação, de € 414,31 x 12 meses relativo a outras remunerações, encontrando-se a responsabilidade infortunístico-laboral transferida para a Seguradora. (15.459,70€/ano).
- C)Exercia a função de motorista de pesados.
- D)O acidente consistiu em: durante o trabalho foi atropelado.
- E)Após a alta ocorrida a 20.12.2018 as lesões determinaram-lhe o coeficiente global de uma Incapacidade Permanente Parcial de 66%, com incapacidade permanente absoluta para a actividade profissional habitual.
- F)O sinistrado nasceu em …/…/1985.
- G)A seguradora pagou-lhe todas as indemnizações devidas por IT´s com referência ao salário de € 11.890,66.
APLICANDO O DIREITO
Da atribuição do factor de bonificação
Pretende o Recorrente a atribuição do factor de bonificação previsto na Instrução Geral n.º 5 al. a) da TNI, por não ser reconvertível, argumentando que “a atribuição de IPATH é caso típico e evidente de não reconvertibilidade no posto de trabalho”.
Os peritos médicos reconheceram, unanimemente, que o sinistrado estava afectado de uma IPATH, podendo afirmar-se que estes casos são situações típicas de não reconvertibilidade do sinistrado em relação ao seu anterior posto de trabalho.[1]
O Supremo Tribunal de Justiça também vem declarando que a atribuição de IPATH, representando uma hipótese de não reconversão no posto de trabalho, é cumulável com a aplicação do factor de bonificação.[2]
Na verdade, o sinistrado em situação de IPATH deve ser compensado pelo esforço acrescido de adaptação a distintas funções e, obrigatoriamente, a outro concreto posto de trabalho. Nestes casos, o factor de bonificação compensa a impossibilidade do sinistrado retomar o exercício das funções correspondentes ao concreto posto de trabalho que ocupava antes do acidente, carecendo assim de adaptação a tarefas diferentes.
No caso, está demonstrado que o sinistrado exercia a profissão de motorista de pesados, tendo sofrido lesões muito graves, que não iremos aqui repetir. Mas há uma evidência que é relevante: tais lesões impedem efectivamente o exercício daquela profissão, que fisicamente é exigente e demanda o uso dos dois membros inferiores, que agora o sinistrado não pode utilizar.
Não podendo o sinistrado retomar as suas funções, estão reunidos os critérios legais para a atribuição do factor de bonificação, pelo que a pensão anual e vitalícia a atribuir, tendo em consideração a incapacidade global de [0,66 + (0,66 x 0,5)] = 0,99, se obtém de acordo com a seguinte fórmula: € 15.459,70 x (0,99 x 0,20 + 0,50) = € 10.790,87.
Em consequência, o subsídio por elevada incapacidade permanente a que se refere o art. 67.º n.º 3 da LAT, ascende a: € 428,90 x 1,1 x 12 x (0,99 x 0,30 + 0,70) = € 5.644,50.