O DIREITO
O MºPº, no seu douto parecer, coloca a questão prévia de não conhecer do recurso porquanto, o recorrente não formula na sua alegação qualquer conclusão e não assaca a decisão recorrida , limitando-se a insistir nos vícios do acto impugnado.
Salvo devido respeito não só o recorrente na sua alegação formulou conclusões, aliás transcritas, como tentou demonstrar a errada aplicação e interpretação das normas aplicadas na decisão recorrida e, assim tentou concluir pela ilegalidade do acto impugnado. Logo, improcede tal questão e, consequentemente, passamos a debruçar-nos, de imediato, sobre o objecto e âmbito do recurso.
O Mmº Juiz a quo rejeitou o recurso contencioso de anulação interposto do acto recorrido – acto expresso no ofício junto a fls.8, por ter entendido que do acto de homologação da classificação de serviço, proferido pelo Presidente da Câmara Municipal, cabe recurso hierárquico necessário e, não tendo sido interposto não está demonstrada a ilegalidade da classificação, da qual se retiraria a ilegalidade da exoneração.
Efectivamente, como consta da matéria de facto dada como provada em de 22.01.2002, a autoridade recorrida, face a informação prestada pelo Chefe de Divisão dos Recursos Humanos e nessa informação, exarou o despacho: “Tendo em conta a informação do Sr. Director do Departamento e não se confirmando um desempenho adequado à nomeação definitiva, não homologo o parecer da Comissão Paritária.”
Por ofício datado de 29.01.2002, sob a epígrafe: Assunto: Reclamação de classificação de serviço.
“Levo a conhecimento de V. Exª que, na qualidade de dirigente com competência para homologar a classificação de serviço, decidi não concordar com o parecer da Comissão Paritária, atendendo que naquele parecer apenas remete para...........................................
Em consequência da manutenção da classificação – Insatisfatória – e não se confirmando um desempenho adequada à vossa nomeação definitiva, deverá V. Exª considerar-se desvinculado das respectivas funções, com efeitos a partir da data da recepção da presente notificação”
Independentemente de indagar da necessidade ou não do uso de recurso hierárquico para a Câmara do acto proferido em 22.01.2002, de não homologação do parecer da Comissão Paritária, o certo é, que o recorrente apenas foi notificado desse acto, quando notificado da exoneração. E, nessa notificação a autoridade recorrida dá a entender ao recorrente, seu destinatário, que é o órgão competente para decidir da avaliação e da exoneração.
Ora, este acto de exoneração foi consequência da classificação atribuída ao recorrente – insatisfatório. Classificação que tomou conhecimento com o acto de exoneração. E, este último acto embora consequência directa daquela classificação é lesivo dos direitos e interesses do recorrente e, como tal, susceptível de recurso contencioso. E, não se pode falar em consolidação daquele acto na ordem jurídica, porquanto o recorrente apenas teve conhecimento do mesmo com a notificação deste.
Por outro lado, estabelece o nº10 do art. 6º do Dec. Lei nº427/89, de 7.12 que «sem prejuízo do regime de estágio, o funcionário que durante o regime probatório não revelar aptidão para o desempenho de funções pode ser exonerado a todo o tempo, por despacho da entidade que o tiver nomeado.»
O que significa que, não é necessária a classificação de serviço homologada para o funcionário provisoriamente contratado, como é o caso do recorrente, ser exonerado. Basta, durante o período probatório não revelar aptidão para o desempenho de funções, para a entidade que o nomeou o poder exonerar.
Assim, parece não colher a argumentação de que a ilegalidade da exoneração só pode decorrer da ilegalidade da classificação atribuída e que da classificação cabe necessariamente recurso hierárquico para a Câmara Municipal, neste caso concreto, que apenas se pretende avaliar da aptidão do funcionário provisoriamente contratado.
O caso citado pelo Mmº Juiz a quo, da necessidade de interpor recurso hierárquico necessário da classificação de serviço, afim de abrir a via contenciosa, nos termos da al.a) do nº1 do art.6º do Dec. Regulamentar nº45/88, de 16.12, refere-se a classificação de serviço atribuída a funcionários providos a título definitivo nas Câmaras e não, como o caso dos autos, que apenas se visa apurar, no período experimental, a aptidão do funcionário eventualmente a nomear a título definitivo.
A autoridade recorrida que detinha competência para exonerar o recorrente, também detinha competência para se pronunciar obre a aptidão do mesmo para o desempenho das funções, que considerou insatisfatória.
Assim não ter entendido, fazendo depender da legalidade da classificação de serviço a legalidade do acto de exoneração, mesmo não tendo aquela sido notificada ao recorrente e entendendo ser necessário interpor recurso hierárquico necessário da classificação atribuída para efeitos de aptidão ou não do desempenho de funções desempenhadas em período experimental e, consequentemente rejeitando o recurso, o Mmº Juiz a quo fez errada interpretação e aplicação das norma em questão, não podendo, por isso, manter-se a decisão recorrida.
Nestes termos, acordam em conceder provimento ao recurso, revogando a decisão recorrida e ordenando a baixa dos autos à 1ª instância para prosseguir seus termos.
Sem custas.
Porto, 2005-02-17
Ass. Maria Isabel S. Pedro Soeiro
Ass. Carlos Carvalho
Ass. Jorge Miguel B. Aragão Seia