01011/02 - Supremo Tribunal Administrativo
Supremo Tribunal AdministrativoSTA
Relator: Angelina Domingues
Processo: 01011/02
Acórdão
Descritores: Acto normativo, Acto administrativo, Falta de atribuições, Incompetência absoluta, Integração na função pública
Decisão: Nega provimento
Votação: Unanimidade
Meio Processual: Recurso jurisdicional
Nr Convencional: JSTA00060657
Nr Documento: SA12004070701011
Juízes: Isabel JovitaJ Simões de Oliveira
Fontes: DGSI: https://www.dgsi.pt/jsta.nsf/35fbbbf22e1bb1e680256f8e003ea931/5ff20a7e55071bcb80256edf0050efbe
Sumário
I - O acto normativo caracteriza-se pela verificação cumulativa dos requisitos da generalidade e da abstracção, enquanto o acto administrativo visa produzir efeitos jurídicos numa situação individual e concreta. II - Constitui acto administrativo o Despacho conjunto que estabelece os critérios para a integração nas categorias da função pública dos trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude, com a publicação em anexo da lista provisória resultante da aplicação dos aludidos critérios; de facto, os funcionários a quem as determinações do referido despacho se aplicam estão concretamente determinados ab initio, constando de lista normativa publicada e esgotam-se com uma única aplicação, embora com pluralidade de destinatários concretos. III - Enferma de incompetência absoluta por falta de atribuições, sendo consequentemente nulo, o despacho do Secretário de Estado da Juventude que decide, isoladamente, com carácter definitivo, acerca da integração da funcionária constante da Lista Provisória anexa ao Despacho conjunto referido em 2, após o cumprimento de audiência prévia.
Texto
Acordam em conferência na 1ª Secção do Supremo Tribunal Administrativo 1.1A... (id. a fls. 3) interpôs, no Tribunal Central Administrativo, recurso contencioso de anulação do despacho do Secretário de Estado da Juventude, datado de 21-4-98, proferido no âmbito do procedimento de reclassificação da recorrente. 1.2Por acórdão do T.C.A., proferido a fls. 75 e segs., foi concedido provimento ao recurso contencioso e anulado o acto recorrido com fundamento na violação do critério estabelecido na alínea a) do nº 1 do Despacho Conjunto nº 57/98, publicado no D.R. 2ª Série, de 26.1.98. 1.3 Inconformado com a decisão referida em 1.2, interpôs o Secretário de Estado da Juventude recurso jurisdicional para este S.T.A., cujas alegações, de fls. 96 e segs., concluiu do seguinte modo: Ao adquirirem a qualidade de funcionários públicos "ope legis", conforme disposto no nº 1 do artigo 1º , conjugado com o nº 1 do artigo 2º , ambos do Decreto-Lei n.º 22/96 , de 20 de Março, os trabalhadores das CCJ adquiriram tal qualidade com as categorias de que eram titulares à altura. Tais categorias não se mostravam adequadas às previstas pelo regime geral da função pública, regime acolhido pela lei orgânica do Instituto Português da Juventude, e diplomas regulamentares, no que respeita aos seus quadros de pessoas. Impunha-se assim a realização de um processo de reclassificação, como aliás se estipula expressamente no artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 22/96 , de 20 de Março. Nem o art. 4.º do DL nº 22/96 , de 20 de Março, nem o Despacho Conjunto n.º 57/98, afastaram a aplicação das regras gerais sobre a matéria da reclassificação profissional acolhidas, ao tempo, no DL n.º 41/84 , de 03/2 e no DL n.º 248/85 , de 15-7. Esse processo de reclassificação, no que se refere à recorrente, consta do acto recorrido, que procedeu à sua reclassificação para a carreira de escriturária dactilógrafa, 5° escalão, do grupo de pessoal administrativo. As funções profissionais desempenhadas com predominância pela recorrente, ora recorrida, desde 1993 e que constam da matéria de facto assente, são características do grupo de pessoal administrativo, grupo de pessoal no qual a mesma foi correctamente integrada, por referência às funções efectivamente exercidas, na carreira de escriturária-dactilógrafa, a única para a qual detinha a necessária habilitação literária. O acto recorrido obedeceu rigorosamente ao disposto no Despacho Conjunto n.º 57/98, publicado no Diário da República, 2.ª Série, n.º 21, de 26 de Janeiro de 1998, bem como no artigo 30.º do Decreto-Lei n.º 41/84 , de 3 de Fevereiro, e no artigo 22.º do Decreto-Lei n.º 248/85 , de 15 de Julho. Pelo que, anulando o acto recorrido, é o acordão recorrido que viola as invocadas disposições legais.” 1.4 Não houve contra-alegações e, neste S.T.A., o Exmº Procurador-Geral Adjunto emitiu o seguinte parecer: “Salvo o devido respeito, afigura-se-nos que o douto acordão recorrido ao anular o despacho contenciosamente recorrido " ... a fim de que a entidade recorrida pratique outro, tendo em consideração as funções efectivamente exercidas com predominância pela recorrente desde 1993", incorre em erro de julgamento. Na verdade, como refere a entidade aqui recorrente nas suas alegações de fls. 96 e seg.s, no processo de integração da recorrente contenciosa na função pública ao abrigo do Dec- Lei n.º 22/96 , de 2-03, foram ponderadas as funções efectivamente exercidas, tendo-se concluído que a integravam no grupo do pessoal administrativo e, dadas as sua habilitações literárias, na carreira de escriturário dactilógrafo, tendo sido feita correcta interpretação e aplicação dos artigos 1° , nº 1, 3° e 4° , do DL nº 22/96 . A tese sustentada pela entidade recorrente de que, por força do n.º 1, do artigo 2 , conjugado com o n.º 1, do artigo 1° , do DL nº 22/96 , só a integração no regime da função pública é que é "automática", ficando ao ingresso e acesso às respectivas categorias dependente das condições estabelecidas no Despacho Conjunto nº 57/98, de 23-12-97, do Ministro das Finanças e Adjunto, entra as quais se encontra a exigência de que a transição dos escriturários dactilógrafos para a carreira administrativa fica dependente do requisito "das necessárias habilitações literárias", merece o nosso apoio. Assim, decidindo no sentido de que a integração na carreira administrativa é automática, não dependendo que qualquer requisito, designadamente das habilitações literárias, o acordão recorrido fez incorrecta interpretação e aplicação dos supracitados preceitos legais, incorrendo em erro de julgamento. Nestes termos, deve ser revogado, concedendo-se provimento ao presente recurso jurisdicional.” 1.5 A Relatora do Processo, suscitou a fls. 115 e 116, a seguinte questão, sobre a qual foram ouvidas as partes: “No recurso contencioso sobre o qual foi proferida a decisão judicial de fls. 75 e segs., recorrida no presente recurso jurisdicional, vem impugnado o despacho do Secretário de Estado da Juventude de 21-4-98, que na sequência da extinção da Casa da Cultura da Juventude de Lisboa, integrou a Recorrente numa carreira profissional (de escriturária-dactilógrafa) com a qual a Recte não concorda. Ora, embora a Recorrente não tenha imputado ao despacho recorrido o vício de incompetência absoluta por falta de atribuições e, o acórdão do T.C.A. também se não tenha referido a tal vício, o mesmo, a verificar-se, implica a nulidade absoluta do acto impugnado, sendo de conhecimento oficioso pelo Tribunal (artº 134º, nº 2 do C.P.A.). Em recente acórdão de que fui Relatora (ac. de 22-4-04 rec. 933/02), este S. T. A. declarou a incompetência absoluta do Secretário de Estado da Juventude para proferir sozinho a decisão definitiva (após o cumprimento da audiência prévia) sobre a integração dos funcionários a que se reporta a lista provisória anexa ao Despacho Conjunto 57/98, do Ministro das Finanças, da Secretária de Estado do Orçamento, do Secretário de Estado da Administração Pública e do Secretário de Estado da Juventude. Entendeu-se que as atribuições para tal matéria radicavam conjuntamente em todos os departamentos ministeriais, chefiados pelas entidades subscritoras do despacho conjunto 57/98, sendo o despacho do Secretário de Estado da Juventude nulo, por, desacompanhado das demais entidades subscritoras daquele Despacho Conjunto, carecer de atribuições para decidir. Face a esta argumentação, inteiramente transponível para o caso dos autos, é previsível que este Tribunal venha a declarar a nulidade, por falta de atribuições, do despacho do Secretário de Estado da Juventude, com precedência e preclusão das demais questões suscitadas no recurso. Assim, ouçam-se as partes para se pronunciarem, em dez dias, sobre a questão ora suscitada. Depois, vão os autos ao Mº. Público para, querendo, se pronunciar sobre a mesma questão.” A Recorrente contenciosa recorrida no recurso jurisdicional nada disse e a entidade recorrente pronunciou-se, nos termos constantes de fls. 119 a 122 pela improcedência do vício de incompetência absoluta, por falta de atribuições, suscitada no parecer da Relatora. O Senhor Procurador-Geral Adjunto, pronunciando-se sobre a questão a que aludiu em 1.5, emitiu o seguinte parecer: “Não se vislumbram razões para discordar do douto entendimento perfilhado no Acórdão deste STA, de 22/4/04, rec. 933/03, sobre a natureza de acto administrativo do despacho conjunto nº 57/98 e sobre a autoria conjunta da anexa lista provisória, decorrentes da prossecução das atribuições reconhecidas aos Ministros das Finanças e Adjunto, nos termos do artº 4º do Decreto-Lei nº 22/96 , de 20 de Março. Em consequência, como aí se decidiu e ora vem suscitado pela Excelentíssima Senhora Conselheira Relatora, o acto contenciosamente impugnado encontra-se ferido de nulidade, por incompetência absoluta, por falta de atribuições da autoridade recorrente para, desacompanhado dos demais autores daquele despacho, decidir isoladamente sobre a integração da recorrida, que constava da lista provisória anexa, após a sua prévia audiência.” 2 Colhidos os vistos legais cumpre apreciar e decidir. 2.1 O acórdão recorrido considerou relevantes para a decisão os factos que a seguir se transcrevem e que não se questionam: “1- A recorrente celebrou contrato de trabalho com a casa de Cultura da Juventude de Lisboa, em 31/1/89, para a prestação de serviços profissionais de escriturária-principal. 2- Em consequência da extinção das casas de cultura e juventude o DL 22/96 de 20/3 procedeu à integração dos referidos trabalhadores na função pública. 3- E, o despacho conjunto n° 57/98, publicado no DR, II série, de 26/1/98, dos Secretários de Estado do Orçamento, da Administração Pública e da Juventude, procedeu à reclassificação provisória daquele pessoal, de acordo com os critérios que estabeleceu, tendo a recorrente sido reclassificada no pessoal administrativo, carreira e categoria de escriturária-dactilógrafa, escalão 5. 4- Nos termos daquele Despacho a integração do pessoal das extintas casas da cultura e juventude é feita segundo a seguinte ordem: "(...) a) Integração num grupo de pessoal cujo conteúdo funcional encontre maior identificação com as tarefas ou funções desenvolvidas com predominância pelo trabalhador desde 1993; Garantia de integração numa carreira, categoria e escalão que implique a aproximação do vencimento actual ao de uma categoria da função pública ... ... d) os funcionários que, pela aplicação dos critérios referidos ... sejam integrados na carreira de escriturários-dactilógrafos transitarão para a carreira administrativa, desde que possuidores das necessárias habilitações literárias; ..." Nessa sequência a recorrente veio requerer ao Presidente da Comissão Executiva do IPJ a correcção da lista nominativa provisória, de forma a ocupar o lugar de 1º oficial, no escalão 4 do sistema retributivo da função pública. 6- Foi prestada a Informação n° 163/GJ/98, do Chefe de Divisão, junta de fls 26 a 33 dos autos e aqui rep. , que termina da seguinte forma: "Por todo o exposto propõe-se a manutenção do projecto de decisão nos exactos termos consignados na lista nominativa anexa ao Despacho Conjunto no que diz respeito a A...." 7- Em 21/4/98 o Secretário de Estado da Juventude profere o seguinte despacho sobre aquela informação: "Concordo". 8- Através do Despacho nº 8658/98 publicado no DR 2ª série de 23/5/98 é publicada a lista definitiva resultante da aplicação dos critérios enunciados no despacho conjunto n° 57/98, em que a recorrente é reclassificada no pessoal administrativo, carreira e categoria de escriturária- dactilógrafa, escalão 5. 9- Conforme resulta do doc. junto a fls 25 e aqui rep a recorrente exerceu, de Junho de 1986 a Dezembro de 1988, funções na Comissão Executiva da OTL, fazendo tratamento de texto, serviço de Telex e Fax, inscrições dos jovens OTL, pagamentos aos mesmos a nível nacional e, outros serviços de tesouraria. Em 1989, foi colocada no Serviço de Expediente para reestruturar o mesmo e coordená-lo. Desta coordenação faz parte o serviço de distribuição feito pelo estafeta despesas c/ expedição de correio e encomendas. Executa, sempre que necessário, qualquer uma das tarefas abrangidas por este Serviço, tais como: tratamento dos Diários da República, selecção e abertura do Correio recebido diariamente, registo informático do correio saído e entrado, serviço de Fax e arquivo em geral.” 2.1.1. Pelo seu interesse para melhor esclarecimento de decisão a proferir, transcreve-se na íntegra, o teor do Despacho Conjunto nº 57/98, de 23/12/97, publicado no D. R. II Série de 26/1/98: “Com a publicação do Decreto-Lei n.º 22/96 procedeu-se à integração na função pública dos trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude. Estes trabalhadores desempenhavam no IPJ funções em tudo idênticas às dos funcionários públicos do próprio Instituto. O artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 22,/96. de 20 de Março. estabeleceu que as condições de ingresso e acesso dos trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude às categorias da função pública seriam estabelecidas através de despacho conjunto dos Ministros das Finanças e Adjunto. Considerando não existir correspondência entre as carreiras existentes na função pública e as categorias profissionais dos trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude, foi iniciado um complexo processo de recolha, classificação e analise curricular dos trabalhadores que se encontravam naquela situação. Foram assim solicitados aos referidos trabalhadores e serviços todos os elementos que se consideraram relevantes para a integração: data de início de funções nas extintas casas de cultura e juventude, funções predominantemente desempenhadas pelos trabalhadores, comprovativos das habilitações literárias, vencimento auferido nas casas de cultura e juventude, formação profissional e outros elementos considerados de relevo. Todo este processo contou com uma participação activa, colaborante e interessada, quer dos membros da comissão de trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude, quer dos representantes do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e Sindicato da Função Pública, tendo ainda sido ponderadas nessa análise as habilitações literárias, a experiência profissional e o respectivo curriculum vitae , nos termos do artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 22/96 , de 20 de Março. Concluído agora este processo, determina-se o seguinte, dando cumprimento ao estabelecido legalmente: 1 - Os trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude serão integrados nas categorias da função pública de acordo com os seguintes critérios, os quais serão aplicados segundo a seguinte ordem: Integração num grupo de pessoal cujo conteúdo funcional encontre maior identificação com as tarefas ou funções desenvolvidas com predominância pelo trabalhador desde 1993; Garantia de integração numa carreira, categoria e escalão que implique a aproximação do vencimento actual ao de uma categoria da função pública, tendo sempre em conta o não decréscimo dos vencimentos do trabalhador; Se do critério referido na alínea b) não resultar um regime mais favorável ao funcionário, haverá direito à contagem do tempo de serviço prestado nas extintas casas de cultura e juventude para efeitos de progressão nos escalões da categoria de integração e, sendo estes esgotados, nas categorias imediatamente superiores e segundo o mesmo princípio; Os funcionários que, pela aplicação dos critérios referidos nas alíneas anteriores, sejam integrados na carreira de escriturários-dactilógrafos transitarão para a carreira administrativa, desde que possuidores das necessárias habilitações literárias; Os funcionários que, pela aplicação dos critérios referidos nas alíneas anteriores, sejam integrados no grupo de pessoal técnico-profissional transitarão para a carreira técnico-profissional, nível 4, desde que possuidores das necessárias habilitações literárias e profissionais à data de entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 22/96 , de 20 de Março. 2- Aos trabalhadores classificados nos termos do número anterior será considerado, para efeitos de progressão nas carreiras, a retroacção à data de entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 333/93 . de 29 de Setembro. 3 - Em anexo a este despacho será publicada a lista provisória resultante da aplicação dos critérios antes enunciados, a qual, pela publicação no Diário da República, e em conjunto com o presente despacho, se considera para efeitos dos artigos 101.º e 66.º e seguintes do Código do Procedimento Administrativo . 4 - As eventuais reclamações escritas relativas ao ponto anterior deverão ser dirigidas ao presidente da comissão executiva do Instituto Português da Juventude. 5- O presente despacho produz efeitos desde 1 de Abril de 1996, devendo no pagamento de retroactivos serem tidas em conta todas as verbas entretanto pagas aos trabalhadores pelo administrador liquidatário das extintas casas de cultura e juventude.23 de Dezembro de 1997. - Pelo Ministro das Finanças, ..., Secretária de Estado do Orçamento. - Pelo Ministro Adjunto, ..., Secretário de Estado da Administração Pública. - Pelo Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro, ..., Secretário de Estado da Juventude.” Segue-se a publicação da Lista Provisória, referida no ponto 3 do Despacho. 2 O Direito Impõe-se conhecer prioritariamente da questão suscitada no despacho da relatora de fls. 115 e segs., respeitante ao vício de incompetência absoluta por falta de atribuições, passível de inquinar o acto contenciosamente recorrido no T.C.A., o qual, apesar de não ter sido imputado ao referido acto pela Recorrente contenciosa, é de conhecimento oficioso do Tribunal (artigo 134º, nº 2 do C.P.A.) Ora, desde já se adianta que, tal como se decidiu, a propósito de situação idêntica, no Processo nº 933/02, desta Subsecção (acórdão de 22-4-04), o acto administrativo cuja legalidade foi apreciada pelo acórdão do T.C.A., que constitui objecto do presente recurso jurisdicional, enferma do aludido vício de incompetência absoluta o que implica a respectiva nulidade. Assim: O Decreto-Lei nº 333/93 , de 29 de Setembro, que criou o Instituto Português da Juventude, extinguiu as casas de cultura da Juventude e colocou-as em regime de liquidação. Nesse momento, o legislador optou por nada dispor quanto ao regime jurídico dos trabalhadores do Instituto Português da Juventude e dos organismos que o antecederam (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis e Instituto da Juventude). Posteriormente, com o Decreto-Lei nº 22/96 de 20 de Março, reconheceu-se ser de elementar justiça que aqueles trabalhadores passassem a integrar de jure o grupo de agentes de direito público, atendendo a que desempenhavam efectivamente funções de carácter público (v. Preâmbulo do D.L. 22/96). Nesta conformidade, o artigo 1º do D.L. 22/96, de 20 de Março, dispõe que os trabalhadores das casas de cultura da juventude em funções desde a entrada em vigor do Decreto-Lei nº 333/93 , de 29 de Setembro, ficam abrangidos pelo regime jurídico dos funcionários e agentes da Administração Pública, exceptuando-se do assim disposto os trabalhadores que expressamente declarem que desejam manter o seu regime de trabalho (nº 2 do citado preceito). De harmonia com o artigo 2º, nº 1 do diploma legal em referência, aquela alteração do regime jurídico dos trabalhadores em questão opera-se independentemente de qualquer formalidade ou requisito fixado na lei para o ingresso na função pública, impondo-se, no nº 2 do mesmo artigo, ao Instituto Português da Juventude a obrigação de proceder à publicação, na 2ª série do Diário da República, da relação nominal dos trabalhadores abrangidos pela dita alteração de regime jurídico, no prazo aí consignado (30 dias a contar do termo do prazo concedido aos que desejam manter o seu regime de trabalho para entregar a declaração referida no nº 3 do artigo 1º, ou seja, no prazo de 61 dias após a entrada em vigor do D. L. 22/96 de 20 de Março). Nos termos do artigo 4º do diploma legal em análise (D.L. 22/96), as condições de ingresso e acesso às categorias da função pública serão estabelecidas através de despacho conjunto dos Ministros das Finanças e Adjunto, a publicar no Diário da República no prazo de 60 dias. Dentro deste enquadramento legal, foi publicado o Despacho Conjunto 57/98, no D. da R. II Série de 26.1.98, cujo texto se reproduziu agora em 2.1.1. da Matéria de facto e, em anexo, tal como consta do nº 3 do referido despacho, a lista provisória respeitante à integração nas categorias da função pública dos trabalhadores das extintas casas de cultura e juventude, de acordo com os critérios estabelecidos no nº 1, alíneas a) a e) do referido despacho. Após a publicação do despacho conjunto nº 57/98 e da lista provisória a ele anexa, a ora Recorrente manifestou a sua discordância em relação à categoria e carreira em que foi integrada, através de exposição dirigida ao Presidente da Comissão Executiva do Instituto Português da Juventude, tal como estava previsto no ponto 4 do citado despacho. O Secretário de Estado da Juventude, concordando com a Informação elaborada pelos Serviços, decidiu, através do despacho contenciosamente impugnado, manter a categoria e carreira em que a Recorrente aparece posicionada na Lista Provisória, anexa ao aludido Despacho Conjunto (6 e 7 da Matéria de facto). Recordado, assim, nos seus traços essenciais, o enquadramento fáctico e jurídico do acto contenciosamente impugnado, emerge, com clareza, o vício de incompetência absoluta de que enferma o acto contenciosamente recorrido, ao invés do defendido pela entidade recorrida. Efectivamente: Em primeiro lugar, o Despacho Conjunto nº 57/98, de 23-12-97, não é um despacho normativo, mas sim um acto administrativo concreto, embora plural. A jurisprudência deste S.T.A. vem, desde há muito, caracterizando o acto normativo através da verificação cumulativa dos requisitos da generalidade e da abstracção, enquanto o acto administrativo visa produzir efeitos numa situação individual e concreta. A generalidade significa que a norma não tem, por natureza, destinatário ou destinatários determinados, concretamente mencionados ou mencionáveis. A abstracção significa que se disciplina não um caso ou hipótese determinada, mas um número indeterminado de casos, uma pluralidade de hipóteses reais que venham a verificar-se no futuro. Em síntese: “ há norma quando o acto é susceptível de se aplicar um número indeterminado de vezes (abstracção) a um número indeterminado de pessoas (generalidade)” (v. ac. deste S.T.A. de 12-5-94, rec. 32.370 e jurisprudência aí citada; v. ainda, entre outros, ac. da 1ª secção de 24-2-99, rec. 31.160; do Pleno da 1ª Secção de 29.6.00, rec. 31.160). Ora, no caso em apreço, os funcionários a quem as determinações do referido despacho conjunto se aplicam estão concretamente determinados ab initio, pois são apenas os que na sequência da publicação do D. L. 22/96, de 20 de Março, ficaram abrangidas pelo regime jurídico dos funcionários e agentes da Administração Pública, constando da lista nominativa publicada em 1996, em obediência ao prescrito no nº 2 do artº 2º do citado diploma legal. Por outro lado, o referido despacho esgota-se com uma única aplicação, embora com pluralidade de destinatários concretos . O despacho em causa não é, por conseguinte um acto genérico, mas acto administrativo concreto, embora plural. Deste modo, o nº 3 do citado Despacho Conjunto, deverá ser interpretado no sentido de ordenar o cumprimento da audiência prévia, em relação às determinações constantes do mesmo e não apenas à lista provisória a ele anexa, como, de resto, decorre com mais nitidez do respectivo texto. Todas as determinações resultantes do referido despacho, incluindo a lista provisória que em anexo foi publicada, são da autoria conjunta do Ministro das Finanças, da Secretária de Estado do Orçamento, do Secretário de Estado da Administração Pública e do Secretário de Estado da Juventude. Ao arrogar-se o poder de proferir sozinho a decisão definitiva, após o cumprimento da audiência prévia, o Secretário de Estado da Juventude arrogou-se uma competência que não tinha, invadindo a esfera de atribuições dos restantes departamentos ministeriais implicados na questão. (cf. artigo 4º do Decreto-Lei nº 22/96 , já citado). Praticou, portanto, um acto viciado de incompetência absoluta, e consequentemente nulo, nos termos do preceituado no artigo 133º, nº 2, alínea b) do C.P.A.. Note-se que esta conclusão sempre se imporia, mesmo que, eventualmente fosse correcto – que não é, como atrás se deixou demonstrado – o pressuposto segundo o qual apenas a lista provisória seria acto administrativo individual e concreto, sujeito a audiência prévia. De facto, também nesse caso, o Secretário de Estado da Juventude careceria de atribuições para decidir definitivamente – como o fez através do acto recorrido –, após apreciação das reclamações dirigidas contra uma lista elaborada sob a superintendência de diversas entidades ministeriais. Seria um contra-senso jurídico que no projecto de lista (ou lista Provisória) interviessem diversas entidades do Estado – os subscritores do despacho conjunto – e, a lista definitiva pudesse ser da responsabilidade do órgão máximo de apenas um dos departamentos ministeriais envolvidos. De resto, o que é normal na Administração Pública é a exigência de requisitos acrescidos em matéria de competência para a aprovação das listas definitivas de integração de pessoal, em relação à elaboração das listas provisórias. Face ao exposto, impõe-se concluir que o acto contenciosamente impugnado enferma de vício de incompetência por falta de atribuições, sendo consequentemente nulo, nos termos do disposto no artº 133º, nº 2, alínea b) do C.P.A. ficando prejudicado o conhecimento das demais questões. 3 Nestes termos, acordam em: Negar provimento ao recurso jurisdicional, pelos fundamentos expostos. Declarar a nulidade absoluta do acto contenciosamente recorrido. Sem custas. Lisboa, 7 de Julho de 2004. Angelina Domingues – Relatora – J Simões de Oliveira – Isabel Jovita