IIIFUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO
1. Das causas de adiamento do julgamento: art. 651º do CPCivil
Considera a Recorrente que, atendendo à justificação apresentada para a falta de comparência do seu mandatário, à audiência de discussão e julgamento em 2ª marcação, deveria ter sido dada a possibilidade de, nos termos do art. 651°, n.° 5 do CPC, reinquirir a testemunha A.S., para esclarecimento entre o seu depoimento e o conteúdo dos documentos juntos aos autos, nomeadamente, na facturação.
1.1. As causas de adiamento da audiência são as enumeradas no art. 651º do CPCivil. De entre elas, e no que aos autos interessa, conta-se a prevista na alínea d) do n.º 1, segundo a qual, feita a chamada das pessoas que tenham sido convocadas, a audiência é aberta, só sendo adiada se faltar algum dos advogados que tenha comunicado a impossibilidade da sua comparência nos termos do nº 5 do art. 155º do CPCivil.
Daqui decorre que, tendo o legislador pretendido restringir as hipóteses de adiamento da audiência, não deixou de prever que a audiência possa ser adiada em virtude de falta do respectivo mandatário da parte.
Na verdade, quando esteja em causa a falta de mandatário de qualquer das partes, o art. 651º/1 do CPCivil, prevê as seguintes situações:
- -a audiência não foi marcada mediante prévio acordo dos mandatários das partes, caso em que a audiência é adiada se faltar algum dos advogados (alínea c));
- -a audiência foi designada com o prévio acordo dos mandatários das partes, caso em que se faltar algum advogado, o mesmo deve comunicar a impossibilidade da sua comparência, nos termos do art. 155º/ 5 (alínea d)).
- -falta algum dos advogados, fora das situações das alíneas c) e d), do nº 1, supra referidas, hipótese em que se procede à gravação dos depoimentos das testemunhas presentes, podendo o advogado faltoso requerer, após a audição do registo do depoimento, nova inquirição, excepto se a falta for julgada injustificada, ou se tendo havido marcação da audiência por acordo, não tiver sido dado cumprimento ao disposto no n.º 5 do artº 155º do CPCivil.
O legislador, a partir da reforma processual introduzida pelo DL 392-A/95, tem procurado afunilar as causas de adiamento das audiências, sabido, como é, que aí reside um dos principais entraves e motivo de descrédito na administração da justiça.
Ainda assim, não olvidando a importância do exercício do patrocínio judiciário, como meio de salvaguarda dos direitos dos cidadãos, da igualdade de acesso aos tribunais, e não ignorando o art. 20º, nº 2 da CRP que determina que todos têm direito ao patrocínio judiciário e a fazer-se acompanhar por advogado perante qualquer autoridade, o legislador pretendeu que, como princípio, o julgamento tenha lugar com a presença dos respectivos mandatários das partes.
Contudo, não é admissível o acordo das partes, nem pode adiar-se a audiência por mais do que uma vez, excepto no caso previsto na alínea a) do n.º 1, isto é, se não for possível constituir o tribunal colectivo e nenhuma das partes prescindir do julgamento pelo mesmo. É o que determina o nº 3 do art. 651º do CPCivil.
1.2. No caso dos autos, já anteriormente tinha sido designada data para a realização da audiência de discussão e julgamento que veio a ficar sem feito, por impedimento do mandatário da Ré, tendo então sido designado o dia 13/12, de acordo com uma das datas propostas pelo referido mandatário. Nesse dia o mandatário da Ré não compareceu à audiência de discussão e julgamento.
Sucede que, estando o julgamento agendado para as 14h30m, o mandatário da Ré fez chegar ao tribunal, pelas 13h desse mesmo dia, requerimento, pedindo o adiamento da audiência de julgamento, informando que não podia comparecer à audiência de discussão e julgamento, por motivo de doença súbita, adiantando que tinha contactado o colega da parte contrária. Com o mesmo requerimento juntou declaração do Hospital de ... do qual consta que o referido mandatário da Ré deu entrada nas urgências nesse dia às 10h54m e teve alta às 12h07m desse mesmo dia.
O tribunal tomou posição no sentido de proceder à realização da audiência de julgamento, dada a impossibilidade de segundo adiamento dos mesmos autos, determinando, todavia, a gravação da audiência de acordo com o art. 651º, nº 5 do CPCivil.
De facto, como decorre do citado nº 5 do art. 651º do CPC, quando se não verifique qualquer das hipóteses a que aludem as alíneas c) e d) do nº 1 do art. 651º, em caso de falta de advogado, o julgamento não é adiado, mas os depoimentos, informações e esclarecimentos são gravados, podendo o advogado faltoso requerer, após a audição do respectivo registo a renovação de alguma prova, desde que alegue e prove que não compareceu por motivo justificado que o impediu de observar a comunicação ao tribunal das circunstâncias impeditivas da sua presença a que alude o preceituado no art. 155º n.º 5 do CPCivil.
2. Da audiência de discussão e julgamento em 2ª marcação
A Recorrente, alegando que se encontra justificada a impossibilidade de comparência à audiência de 13/12, pretende a reinquirição da testemunha AS..., para, como diz, “esclarecimento de contradições entre o seu depoimento e o conteúdo dos documentos juntos aos autos, nomeadamente, na facturação”.
Não podemos, contudo olvidar que o ilustre mandatário já anteriormente tinha dado causa a um adiamento, pois já faltara justificadamente em 8 de Novembro de 2010, motivando adiamento.
Daí que, salvo melhor entendimento, não tem o direito de renovar a prova já produzida em audiência, mesmo que também agora a sua falta de comparência esteja justificada.
Com efeito, só a primeira falta do ilustre advogado motiva o adiamento da audiência (n.º 3 do art.º 651). Por outro lado, da conjugação das disposições legais do n.º 5 do art.º 651º e n.º 5 do art.º 155º resulta que a falta em causa (aquela que pode justificar a reinquirição de alguma prova) só pode ser a primeira falta do advogado que, em princípio, determinaria o adiamento da audiência, desde que justifique a impossibilidade de comparência, nos termos do n.º 5 do art.º 155º do CPC. Faltando pela 2.ª vez, com ou sem justificação do mandatário ausente, sempre a audiência de julgamento se iniciaria, como iniciou, com gravação dos depoimentos, como determina a primeira parte do n.º 5 do art. 655º do CPCivil.
Portanto, o direito à renovação posterior e parcial da prova já produzida, pelo advogado faltoso à audiência que se realizou sem a sua presença, fica condicionado pela alegação e justificação, posterior, mas em tempo, pelo advogado, não só do motivo dessa sua ausência como pela conclusão probatória de que esse motivo, imprevisto, o impediu de comunicar atempadamente nos termos do n.º 5 do art.º 155º do CPCivil, essa sua ausência e desde que se trate da primeira marcação.
Assim é de concluir que a justificação da falta pelo ilustre advogado apenas releva para efeitos de adiamento da audiência de discussão e julgamento, circunstância que só pode ocorrer uma única vez. Também o cumprimento do n.º 5 do art. 155º apenas releva para efeitos do adiamento da audiência, que, repete-se, apenas poderá ocorrer uma vez.[1]
No caso dos autos e porque se trata de um segundo adiamento, não pode a Ré beneficiar do mecanismo previsto no nº 5 do art. 651º do CPCivil que foi concebido quando se trata de uma primeira marcação e o advogado faltoso não tem condições de cumprir o disposto no art. 155º, nº 5 do CPC, isto é de avisar antes da data designada a sua impossibilidade de comparência.
E nem se diga que o mecanismo da gravação de prova produzida em audiência de discussão e julgamento sem a presença do advogado, só faz sentido desde que o advogado possa a renovar alguma das provas produzidas. Com efeito, este mecanismo da gravação dos depoimentos constitui a salvaguarda legal e constitucional do princípio do contraditório, permitindo, em sede de recurso, a impugnação eventual da decisão de facto.
A intenção do legislador foi evitar as demoras dos processos com os sucessivos adiamentos das audiências Por isso, o art.º 651, n.º 5, tal como está redigido, tem de reportar-se à realização da audiência em primeira marcação.
A interpretar-se de uma forma mais ampla, permitindo sucessivas renovações da prova, o andamento dos autos acabaria por ficar mais prejudicado com o não adiamento das audiências do que com o seu adiamento, desvirtuando o objectivo e intenção do legislador.
Assim sendo, improcede o presente recurso, sendo de manter a decisão que indeferiu a requerida renovação de prova.
Concluindo:
- 1.Do disposto no n.º 5 do art.º 651 resulta que, fora das circunstâncias em que a falta do advogado motiva o adiamento, previstas nas alíneas c) e d) do n.º 1 do art.º 651, procede-se à audiência de discussão e julgamento na ausência do ilustre advogado.
- 2.Os depoimentos são obrigatoriamente gravados e o ilustre advogado faltoso tem direito a nova inquirição, se alegar e provar que não compareceu por motivo justificado que o impediu de dar cumprimento ao disposto no n.º 5 do artigo 155.º do CPCivil.
- 3.Faltando uma segunda vez, mostra-se irrelevante a justificação da sua falta do mandatário ausente, porque a audiência terá sempre lugar, não lhe sendo concedida a prerrogativa da reinquirição de testemunhas.