FUNDAMENTAÇÃO
Suscita-se a questão prévia da legitimidade do Ministério Público, face à desistência de queixa apresentada pelo presidente da Junta de Freguesia de Fornelos na audiência de julgamento realizada em 14 de Novembro de 2011 (ata de fls. 155 e ss).
Vejamos:
O arguido foi acusado e condenado pela autoria de um crime de dano qualificado p. e p. pelos arts. 212 e 213 nº 1 al.
c) do Cod. Penal.
A circunstância qualificativa consiste em a coisa danificada ser “destinada ao uso e utilidade públicos”.
O dano é um crime doloso, embora seja bastante o dolo eventual. No caso de dano “simples” o agente tem de saber ou representar (conformando-se com o resultado) que a sua ação sacrifica coisa alheia. Já no dano qualificado tem também de ter conhecimento de todos os elementos ou circunstâncias que determinam a qualificação. No caso da qualificativa do art. 213 nº 1 al. c) do Cod. Penal tem de representar que a coisa é destinada ao uso e utilidade públicos – v. Conimbricense Tomo II, pags. 249 e 250.
Não se provando factos que permitam afirmar que o dolo também abrangeu a circunstância qualificativa, não pode o agente ser punido por mais do que pelo crime de dano simples do art. 212 do Cod. Penal – obra citada, tomo II, pag. 250.
Pois bem, dos factos provados, que reproduzem os da acusação, resulta inquestionável que o caminho danificado pelo arguido se destinava a uso público. Mas não consta que o arguido conhecia tal fim de destino de uso público, ou que representou tal hipótese. Também não resulta de forma inelutável da configuração do caminho que o mesmo era público. Há caminhos idênticos de utilidade meramente particular, como os de servidão, por exemplo.
Sob pena de violação da estrutura acusatória do processo criminal (art. 32 nº5 da CRP), para a condenação pelo crime de dano qualificado em causa, tinha de constar da acusação a alegação de que a arguido sabia (ou representou, conformando-se com tal hipótese) que o caminho era destinado ao uso e utilidade públicos. E não apenas, como consta da acusação, que o arguido “sabia não lhe pertencer o dito caminho” (cfr. fls. 77).
A “intenção” com que o arguido atua constitui matéria de facto, que tem de constar da acusação, sob pena de esta decair. Trata-se de um facto do foro psicológico, mas “facto”. Os factos deste tipo são, muitas vezes, indemonstráveis de forma naturalística, mas o tribunal pode considerá-los provados, através de outros que com eles normalmente se ligam.
Ora a acusação nenhum facto contêm tendente a enquadrar o referido requisito do dolo do dano qualificado.
Não se argumente, em sentido contrário, que tal intenção resulta implícita do conjunto dos factos e do comportamento do arguido.
Não deve ser confundida a exigência de alegação de todos os factos que integram o tipo de crime com a prova dos mesmos. Por exemplo, o modo como uma bofetada foi desferida pode inculcar a certeza de que houve intenção de ofender corporalmente. Porém, isso não dispensa a alegação (na acusação) dos factos que integram o dolo.
A circunstância do dolo poder ser provado (e, portanto, inferir-se) com recurso a presunções naturais ou com recurso às regras da vida não significa que fica prescindida a respetiva alegação dos factos que o integram – cfr. a tal propósito Figueiredo Dias, “Ónus de alegar e de provar em processo penal”, RLJ, 105º, nº 3473, 1972, p. 128, «uma coisa é a presunção, de iure ou iuris tantum, do dolo, absolutamente inadmissível (...) em qualquer terreno do direito penal moderno; outra coisa completamente diferente – e, esta sim, aceitável – seria a necessidade de o juiz comprovar a existência do dolo através de presunções naturais (não jurídicas) ligadas ao princípio da normalidade ou da regra geral ou às chamadas máximas da vida e regras da experiência».
Pelas razões expostas, a acusação nunca poderia levar a mais do que à condenação pelo crime de dano “simples” do art. 212 nº 1 do Cod. Penal.
Tal crime tem natureza semi-pública, dependendo de queixa (art. 212 nº 3 do Cod. Penal).
Conforme se vê de fls. 155 e 156 (ata da audiência realizada em 14-11-2011) e da gravação da audiência, o Presidente da Junta de Fornelos, que apresentara a queixa, declarou desistir da mesma.
O arguido já declarara que não se opunha a uma eventual desistência de queixa – fls. 68.
Resta, pois, homologar a desistência, declarando extinto o procedimento criminal contra o arguido.
A extinção do procedimento criminal prejudica o conhecimento das demais questões suscitadas no recurso.