5. Uma vez concluso o processo no juiz 2, pela senhora juíza foi proferido, a 11/09/2024, o seguinte despacho:
«Atenta a posição assumida pela Mma. Juiz 14, à qual foi distribuído o presente processo, na sequência da nossa declaração de impedimento, afigura-se-nos estarmos perante uma situação de conflito negativo de competência (art.º 34º, nº 1, do C.P.P.).
Assim, para que o conflito seja dirimido pelo Ex.mo Senhor Presidente das Secções Criminais do Tribunal da Relação de Lisboa, organize e instrua apenso com cópia da sentença proferida, do Acórdão da Tribunal da Relação de Lisboa, do despacho em que nos declaramos em situação de impedimento, do despacho da Mma. Juiz 14, fazendo constar menção aos sujeitos processuais envolvidos (art.ºs 12º, nº5, a), e 35º, nº1, ambos do C.P.P.).
Após instruído, com cópia do presente despacho, suba ao Tribunal da Relação de Lisboa.».
6. Cumprido que foi o disposto no artigo 36.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, a Exma. Procuradora-Geral Adjunta pronunciou-se no sentido de se atribuir a competência para a prolação de nova sentença ao juiz 2 do Juízo Local Criminal de Lisboa. A arguida nada veio alegar sobre o alegado conflito.
7. Sendo este o tribunal competente, cumpre apreciar e decidir.
II – Apreciação
Em face dos despachos supra transcritos, cumpre verificar se estamos perante um conflito negativo de competência que caiba a este tribunal dirimir.
Estabelece o artigo 34.º do Código de Processo Penal:
«1. Há conflito, positivo ou negativo, de competência quando, em qualquer estado do processo, dois ou mais tribunais, de diferente ou da mesma espécie, se considerarem competentes ou incompetentes para conhecer do mesmo crime imputado ao mesmo arguido».
2. O conflito cessa logo que um dos tribunais se declarar, mesmo oficiosamente, incompetente ou competente, segundo o caso.»
A lei é clara quanto aos pressupostos legais do conflito. Traduz-se numa divergência entre dois ou mais tribunais, de diferente ou da mesma espécie, em relação ao conhecimento de um feito jurídico-criminal e surge, em processo penal, quando mais do que um tribunal se reconhecem ou não se reconhecem competentes para conhecer quanto à existência de um crime cuja prática é atribuída ao mesmo arguido.
Se todos os tribunais em oposição se arrogam competentes estamos perante conflito positivo; se declinam a competência ocorre conflito negativo.
A incompetência do tribunal não se confunde com o impedimento do juiz, que se traduz numa incapacidade de exercício da função jurisdicional num determinado processo – o juiz é competente para tramitar determinado processo, mas não é subjectivamente capaz, por existir uma determinada situação, imposta legalmente por razões de imparcialidade, que impede que o mesmo possa ter participação num determinado processo.
Não estamos, no caso dos autos, perante um conflito de competência entre tribunais, mas sim perante uma declaração de impedimento por parte da Juíza titular a quem o processo foi inicialmente distribuído para o julgamento, que o realizou e proferiu a sentença, por um lado, e uma declaração de incompetência por parte do senhor juiz a quem o processo foi distribuído após aquela declaração de impedimento, por outro.
Aquela declaração de impedimento por parte da senhora juíza titular, que já havia realizado o julgamento e proferido a sentença, surgiu na sequência da decisão que foi proferida pelo Tribunal da Relação de Lisboa, a 6/02/2024, que determinou a nulidade da sentença que havia sido proferida por aquela, com fundamento em omissão de pronúncia e falta de fundamentação, e que, além disso, ordenou, ao tribunal recorrido (aquele que havia realizado o julgamento), a prolação de nova sentença que supra as apontadas nulidades.
O que o tribunal da Relação ordenou ao tribunal que proferiu a sentença declarada nula (juiz 2) foi que esse mesmo tribunal, e não outro, proferisse nova sentença expurgada das nulidades que o tribunal de recurso declarou existirem na sentença sobre a qual incidiu o recurso, o que, aliás, está conforme ao disposto nos artigos 379.º, n.º 2 e 328.º-A. do Código de Processo Penal.
A declaração de impedimento por parte da senhora juíza que havia realizado o julgamento e proferido a sentença declarada nula pelo Tribunal da Relação (juiz 2), certamente devida a confusão com a situação em que o tribunal superior determina o reenvio do processo para novo julgamento, nos termos do artigo 426.º, n.º 1 do Código de Processo Penal, não acata o dever de obediência a que estão sujeitos os juízes, das decisões proferidas em via de recurso por tribunais superiores, previsto no artigo 4.º, n.º 1 do Estatuto dos Magistrados Judiciais e no artigo 4.º, n.º 1 da Lei de Organização do Sistema Judiciário (Lei n.º 6272013, de 26/08), violação que é susceptível de procedimento disciplinar, em face do disposto no artigo 83.º-H, n.º 1, alínea a) daquele Estatuto.
Com efeito, à senhora juíza do juiz 2, a quem foi ordenado, pelo tribunal superior, em via de recurso de uma decisão por ela proferida, que proferisse nova sentença que supra as nulidades assinaladas, exige-se o dever de obedecer a tal decisão e de prolatar uma nova sentença, pois foi isso que foi determinado pelo tribunal superior e uma vez que, como a mesma bem sabe, foi perante ela que foram realizados todos os actos de instrução e discussão praticados na audiência de julgamento.
Não tem qualquer razão de ser o conflito de competência que foi suscitado pela senhora juíza (juiz 2) pois não existe qualquer conflito de competência entre tribunais, que cumpra conhecer ou dirimir. O que temos é uma decisão proferida pelo Tribunal da Relação em via de recurso de uma decisão proferida pela senhora juíza, que esta deverá acatar, sob pena de procedimento disciplinar, prolatando a nova sentença que aquele tribunal superior determinou que fosse proferida pelo tribunal recorrido, isto é, pelo tribunal presidido pela senhora juíza que suscitou o alegado conflito.
III – Decisão
Nos termos e com os fundamentos expostos, decide-se que não existe nos autos qualquer conflito negativo de competência que deva ser conhecido, competindo à Sr.ª Juíza que proferiu a sentença objeto do recurso para este Tribunal da Relação, nos termos do artigo 4.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais, dar cumprimento ao que foi decidido no acórdão que o apreciou, suprindo consequentemente as nulidades nele declaradas.
Sem tributação.
Cumpra-se o artigo 36.º, n.º 3 do Código de Processo Penal.
Lisboa, 26/11/2024
(processei e revi – art.º 94, n.º 2 do C.P.P.)
Maria José Machado