Acordam no Tribunal da Relação do Porto No -ª Juízo do Tribunal de....., no Proc. ../.., foi proferida sentença que:
1 – Condenou o arguido B....., por um crime de ofensa à integridade física grave p. e p. pelo art. 144 als. a), b) e c) do Cod. Penal, em 2 (dois) anos e 6 (seis) meses de prisão; e 2 – Condenou o mesmo arguido e demandado cível a pagar:
- ao Hospital Distrital de...., 873.590$00, acrescidos de juros à taxa legal desde 29-3-00 até integral pagamento; e - a C....., 1.575.000$00, acrescidos de juros de mora à taxa legal desde 29-3-00 até efectivo pagamento.
O arguido interpôs recurso desta sentença.
Suscita a seguintes questões:
- -a existência do dolo eventual;
- -a opção por uma pena não privativa da liberdade;
- -a suspensão da execução da pena;
- -os valores fixados para os danos patrimoniais e não patrimoniais.
Respondendo, o magistrado do MP junto do tribunal recorrido e o demandante cível pronunciaram-se pela improcedência do recurso.
Nestas instância o sr. procurador geral adjunto emitiu parece no mesmo sentido.
Colhidos os vistos, procedeu-se à realização da audiência com observância do formalismo legal.
INo acórdão recorrido foram considerados provados os seguintes factos:
1 – Cerca de dois meses antes de 12 de Janeiro de 1999, o arguido B..... e C..... trocaram entre ambos uma palavras um tanto azedas por ambos terem bebido “um copo a mais”.
2 - No dia 12 de Janeiro de 1999, pelas 21 horas e 45 minutos, o arguido B..... entrou no café denominado “Café do...”, sito em....., ....., acompanhado de D....., e ambos se dirigiram ao balcão do referido café, altura em que se encontrava já naquele estabelecimento sentado numa mesa o C......
3 – A determinada altura o arguido apercebeu-se da presença naquele local de C....., que se encontrava sentado numa mesa do aludido “Café do.....” de costas para o balcão.
4 – Então o arguido B..... dirigi-se em direcção à mesa onde se encontrava o citado C......
5 – Aí chegado, o arguido B....., sem proferir qualquer palavra, e sem que C..... igualmente tivesse proferido qualquer palavra dirigida à pessoa do arguido, desferiu um pontapé na cadeira onde estava sentado o aludido C....., tombando-o no chão.
6 – Uma vez caído no chão C....., o arguido B....., consciente e voluntariamente, desferiu-lhe dois pontapés que o atingiram no abdómen, causando-lhe fractura do baço, bem como as lesões descritas no documento de fls. 19 (agressão traumatismo lombar e quadrante esquerdo do abdómen; palidez; hemoperitoneu) e examinadas nos autos a fls. 26 (que aqui se dão por reproduzidas para os efeitos legais) e que lhe demandaram, como consequência directa e necessária, 45 (quarenta e cinco) dias de doença com igual período de incapacidade para o trabalho, tendo estado internado no Hospital Distrital de..... no período que decorreu entre 12-1-99 e 1-2-99.
7 – Na sequência da descrita conduta do arguido B....., e por causa dela, foi colocada em perigo a vida de C..... (após realização de laparotomia exploradora, careceu aquele de ser submetido a tratamento médico invasivo cirúrgico urgente (esplenectomia), facto que, a não ocorrer, lhe acarretaria a morte por choque hipovolémico).
8 – A extracção do baço ao ofendido constituiu privação de importante órgão, uma vez que este assume papel importante no sistema imonologico e da circulação portal.
9 – Com a descrita conduta, provocou ainda o arguido a C..... doença particularmente dolorosa, quer pelas lesões internas que este sofreu (fractura do baço com hemoperitoneu, seja, a existência de sangue na cavidade hemoperitonial), quer pelo tempo de internamento.
10 – O arguido actuou pela forma descrita por motivos ignorados, visando ofender o corpo e a saúde de C....., admitindo como consequência possível da sua conduta as lesões referidas, bem como provocar doença particularmente dolorosa e provocar-lhe perigo para a vida.
11 – O arguido agiu livre, consciente e voluntariamente, visando ofender o corpo e a saúde de C....., representando as referidas lesões como consequência possível da sua conduta e admitindo como possível provocar doença particularmente dolorosa e provocar perigo para a vida ao referido C......
12 – Bem sabia o arguido que tal conduta não era permitida por lei
13 – O arguido não tem antecedentes judiciários.
14 – O arguido é trolha e trabalha na..... auferindo uma retribuição mensal não inferior a 200.000$00 (duzentos mil escudos), tem casa própria e veículo automóvel.
15 – C..... nasceu em 17-7-1949, e é agricultor de profissão.
16 – C....., em consequência da descrita conduta do arguido, foi assistido no Hospital Distrital de....., importando os encargos decorrentes da assistência hospitalar prestada nesta entidade, compreendendo internamento, urgência, consulta externa, raios X, análises, taxas moderadoras no montante global de 873.590$00 (oitocentos e setenta e três mil quinhentos e noventa escudos).
17 – Em Janeiro de 1999, o demandante C....., pelo seu trabalho de jornaleiro, auferia uma retribuição de 50.000$00 (cinquenta mil escudos).
18 – Como consequência da descrita conduta do arguido, C..... esteve quarenta e cinco dias incapacitado para o trabalho, deixando de auferir a importância global de 75.000$00 (setenta e cinco mil escudos).
19 – C..... trabalha na agricultura de mera subsistência.
20 – C..... continua a trabalhar como jornaleiro não com tanta frequência como antes pelo simples facto de não haver trabalho e ter passado a viver sozinho.
21 – Tanto na produção como no seu tratamento, C..... sofreu física e psiquicamente.
22 – C..... sentiu-se desgostoso por ter sido molestado fisicamente no interior de um café na presença de seus conhecidos.
Considerou-se não provado que:
- -no dia 12 de Janeiro de 1999, no interior do Café do...., em....., o arguido tivesse desferido a C..... vários murros por diversas partes do corpo.
- -o arguido tivesse actuado para causar ao ofendido as graves lesões referidas.
- -o arguido tivesse planeado o crime.