2 Fundamentação
Foi proferido nos autos o seguinte despacho: (Transcrição parcial)
“Questão Prévia:
Dispõe o artigo 311º, n.° 1 do Código de Processo Penal que “Recebidos os autos no tribunal, o presidente pronuncia-se sobre as nulidades e outras questões prévias ou incidentais que obstem à apreciação do mérito da causa, de que possa desde logo conhecer”.
Ora, entende o Tribunal que o disposto neste normativo aqui se aplica por força do preceituado no artigo 41.°, n.° 1 do RGCOC.
(…)
Decisão:
Termos em que, em sede de apreciação de questão prévia, para evitar a prática de atos inúteis (nomeadamente a inquirição de testemunhas), o que a lei proíbe, se declara, por omissão dos factos que levaram à aplicação de uma coima a título negligente, e bem assim, a falta de referência, no elenco dos factos provados, a esse elemento subjectivo, às condições económicas da arguida e ao beneficio económico retirado, e falta de critérios discriminados quanto à fixação da coima concreta, a irregularidade da decisão da entidade administrativa e, na sequência, arquiva-se o presente processo”
Ora, a questão levantada pelo Ilustre Procurador-Geral Adjunto no seu parecer, - a verificação de nulidade – determina que a apreciação do recurso apresentado pelo Magistrado do Ministério Público junto do Tribunal de 1ª Instância fique na dependência da prévia apreciação do referido vício.
Conforme decorre do RGCO é o seguinte o regime de apreciação de recurso das decisões administrativas:
Artigo 62.º Envio dos autos ao Ministério Público 1 - Recebido o recurso, e no prazo de cinco dias, deve a autoridade administrativa enviar os autos ao Ministério Público, que os tornará presentes ao juiz, valendo este acto como acusação.
2 - Até ao envio dos autos, pode a autoridade administrativa revogar a decisão de aplicação da coima.
Artigo 63.º (Não aceitação do recurso)
1 - O juiz rejeitará, por meio de despacho, o recurso feito fora do prazo ou sem respeito pelas exigências de forma.
2 - Deste despacho há recurso, que sobe imediatamente.
Artigo 64.º Decisão por despacho judicial 1 - O juiz decidirá do caso mediante audiência de julgamento ou através de simples despacho.
2 - O juiz decide por despacho quando não considere necessária a audiência de julgamento e o arguido ou o Ministério Público não se oponham.
3 - O despacho pode ordenar o arquivamento do processo, absolver o arguido ou manter ou alterar a condenação.
4 - Em caso de manutenção ou alteração da condenação deve o juiz fundamentar a sua decisão, tanto no que concerne aos factos como ao direito aplicado e às circunstâncias que determinaram a medida da sanção.
5 - Em caso de absolvição deverá o juiz indicar porque não considera provados os factos ou porque não constituem uma contra-ordenação.
Sendo este o regime processual a observar, podemos concluir que recebido o recurso da arguida B… foram os autos remetidos ao Ministério Público junto do Tribunal recorrido, que e uma vez na sua posse, os apresentou ao Juiz, valendo este acto como acusação.
Cabe o Ministério Público, apreciar a decisão administrativa e sob a mesma ajuizar da sua viabilidade, tal como o faz com as acusações que submete à fase de julgamento - cfr. Ac. Rel. de Lisboa de 12 de Abril de 2011, processo 195/11.8TBCLC.L1-5, im www.dgsi.pt.
Apresentada ao juiz a decisão administrativa e o recurso que sobre a mesma recaiu, pode o juiz tomar uma de duas decisões, ou o rejeita, porque interposto fora do prazo ou por falta e respeito pelas exigências de forma, ou o aceita e irá apreciar o seu mérito.
Se o não rejeitar, a apreciação do recurso pode ser efectuada por despacho, ou seja sem a produção de prova, ou mediante produção de prova em sede de audiência de julgamento.
A liberdade de apreciar o recurso por despacho está sujeita à concordância da arguida e do Ministério Público, sendo uma faculdade condicionada à obtenção desse acordo, havendo lugar, no caso, à notificação daqueles intervenientes para o efeito.
Conforme resulta dos autos foi proferido despacho judicial – cfr. fls. 128 – a admitir o recurso, e a ordenar a notificação do Ministério Público para se pronunciar quanto às nulidades invocadas pela arguida.
Correspondendo à notificação que recebeu, veio o Magistrado do Ministério Público pronunciar-se tendo concluído que não se verificavam as referidas nulidades.
Após, e sem dar cumprimento ao disposto no artigo 64º nº 2 do RGCO, foi proferido o despacho agora em recurso, que acabou por apreciar de mérito o recurso.
Fundamenta-se tal despacho na aplicação ao RGCO do disposto no artigo 311º nº 1 do CPP.
Com o devido respeito, a aplicação do disposto no artigo 311º nº 1 do CPP ao RGCO implicava sempre a inexistência da norma expressa no regime das contra-ordenações – cfr. artigo 41º nº 1 do DL n.º 433/82, de 27 de Outubro – o que não é o caso, pois como vimos pode o recurso ser rejeitado quando não estiver em condições de permitir a apreciação do mérito da causa, ou seja e no caso, do mérito do recurso delimitado pelas suas conclusões, ainda que estas se reportem a vícios que ferem a decisão administrativa.
Ao aceitar o recurso, o Tribunal entendeu estar o mesmo em condições de ser apreciado, devendo então optar pela forma de o fazer, sendo que, se a opção fosse a sua apreciação por despacho haveria de colher a concordância da arguida e do Ministério Público, o que não aconteceu.
Tal omissão determina de imediato a verificação de uma nulidade insanável – artigo 119º al. b) e c) do CPP, o que agora se declara para todos os efeitos legais.