IRelatório.
A..., professora contratada na Escola Secundária da Quinta do Marquês, recorre do Acórdão do TCA de 6/12/2001 que rejeitou o recurso contencioso que interpusera do indeferimento tácito atribuído ao Senhor Secretário de Estado da Administração Educativa do requerimento em que pedia o processamento do seu vencimento pelo índice 183.
A alegação termina formulando as seguintes conclusões:
- -Na relação contratual entre a recorrente e a Administração esta tem poderes especiais quanto à execução do contrato, como o de impor a remuneração através de normas legais aplicáveis a todos os docentes e não apenas aos dos quadros – artigo 21 do DL 312/99, de 10 de Agosto, pelo que a questão da legalidade do processamento da remuneração concreta não pode ser analisada no plano da vontade negocial, mas no plano dos actos administrativos (conc. 1ª. a 5.ª e 8.ª).
- -A impugnação do acto de processamento do vencimento é o meio correcto de defender a sua posição contra o procedimento da Administração e está garantido constitucionalmente, pelo que deve concluir-se no sentido da formação do indeferimento tácito e da legalidade do recurso, nos termos dos artigos 9.º n.º 3 do ETAF e 120.º do CPA (conclusões 6.ª; 7.ª e 9.ª a 12.ª)
Não houve contra alegação e o EMMP emitiu douto parecer no sentido do não provimento por o decidido corresponder à pretensão de alterar uma cláusula remuneratória de contrato, que apenas por mútuo consentimento pode obter-se e não por via de acto administrativo.
A decisão recorrida considerou provados os factos:
A – A recorrente celebrou, em 1/9/2000 o "contrato administrativo de serviço docente" junto a fls. 13, que se dá por reproduzido, nos termos do qual a remuneração mensal é paga pelo índice 124.
B – Em 22.5.2001 impugnou junto do Sr. SEAE o acto de processamento do seu vencimento pelo índice 124 e solicitou a revogação do acto recorrido em virtude de o mesmo se encontrar ferido do vício de violação de lei com o consequente processamento do vencimento à recorrente pelo índice 183, correspondente ao 5.º escalão da carreira docente.
C – Não obteve qualquer resposta.
Em face desta situação o Acórdão recorrido considerou que o silêncio da entidade recorrida apenas pode ser interpretado como declaração negocial de não aceitação da alteração da cláusula contratual pedida pela recorrente e não como acto de autoridade, ou decisão de indeferimento, recorrível nos termos dos artigos 109.º do CPA e 25.º n.º 1 da LPTA.
Este é também o entendimento seguido por uma corrente jurisprudencial que nesta Secção do STA e respectivo Pleno fez vencimento e de que se podem apontar os Ac. de 9.2.99 no Proc. 38893; de 6.7.99 no Proc. 37241 e de 21.09.2000 no Proc. 41121.
O contrato celebrado entre a recorrente e a representante do Ministério da Educação para prestação de serviço docente no ano lectivo de 2000/2001 como professora do ensino secundário do grupo de técnicas especiais, constitui uma relação jurídica administrativa destinada à prestação duradoira de serviços para fins de imediata utilidade pública, portanto um contrato administrativo – artigo 178.º do CPA e Marcelo Caetano Manual de Direito Administrativo p. 587.
Neste tipo de contratos a Administração tem poderes para modificar unilateralmente o conteúdo das prestações e para dirigir o modo de execução das prestações, como decorre das al. a) b) do artigo 180.º do CPA.
Porém, tem este Tribunal entendido que estabelecido o montante a pagar pela prestação do serviço docente através de uma cláusula contratual que é a manifestação do acordo de vontades das partes, não pode a Administração alterar tais cláusulas por acto unilateral.
A favor deste posicionamento tem o STA entendido maioritariamente que a solicitação da recorrente para se proceder ao processamento do vencimento por índice diferente do que está indicado na cláusula contratual pode constituir um pedido de declaração negocial destinado a alterar aquela cláusula, mas não pode destinar-se a provocar uma definição unilateral da situação da recorrente plasmada em contrato, por tal definição aí não caber.
A pretensão da recorrente apresenta-se, assim, como proposta de alteração consensual do contrato de modo a torná-lo, na sua perspectiva, mais justo, mais conforme com a lei e adequado à sua situação funcional e ao serviço prestado.
Por outro lado, nesta tese, não estamos perante questões de execução do contrato, porque está inevitavelmente envolvida a questão da validade de uma das suas cláusulas e daí não poder falar-se da possibilidade de acto administrativo, por a tal se opôr o artigo 186.º n.º 1 do CPA.
Deste modo, face a petição levada a efeito pela recorrente (que havia celebrado um contrato administrativo de prestação de serviço docente, como se viu), tendente à alteração da cláusula remuneratória de modo a passar a vencer pelo índice 183, não há o dever legal de decidir esta pretensão por acto unilateral de autoridade (cf. n.º 1 do art.º 109.º do CPA), pelo que o recurso contencioso interposto do silêncio da Administração sobre o requerimento em que se formulava aquela pretensão carece de objecto por não se haver formado indeferimento tácito.
Assim, o acto recorrido não pode ser objecto idóneo de recurso contencioso, corporizando questão que havia de ser dirimida pela via da acção respectiva.
Não se vêm razões decisivas para inflectir o entendimento assim formado, pelo que se adopta essa solução maioritária.